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Entrevista com Maurício Campos

Nesta edição, Uni-vos publica a entrevista realizada com o companheiro Maurício Campos, militante combativo que atua na REde contra Violência. Uma voz atuante contra as mazelas que o capital impõe ao proletariado. A entrevida, em duas partes: a primeira foi concedida a Camila Marins, jornalista da Federação dos Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) e a segunda parte concedida a Tatiana Lima, jornalista do Núcleo Piratininga de Comunicação.

Vale a pena conferir. Uma boa leitura a todos.

Primeira entrevista (a Camila Marins)

- Como se dá o processo de favelização e segregação das periferias no Brasil?

O crescimento de favelas acompanha a urbanização em todo o mundo, já que esse crescimento urbano acontece sem que se supere as condições de desigualdade social, concentração de renda, propriedade e poder, na grande maioria dos países. Erguer bairros precários em áreas sem infra-estrutura urbana é a única saída dos pobres para enfrentar seu problema de habitação, já que o poder público, comprometido com os interesses e privilégios das minorias ricas e dominantes, não tem uma política urbana e habitacional voltada para a maioria.

Em geral, a favelização acompanha a expulsão dos pobres do campo, que vão tentar sobreviver nas cidades; ou então o empobrecimento das próprias populações urbanas já estabelecidas, o que se agravou particularmente a partir dos anos 90. O norte-americano Mike Davis, em seu livro "Planeta Favela", cita números da ONU que registram uma população moradora de favelas igual a 1 bilhão de pessoas em 2005, o que seria perto de 35% de toda população urbana mundial.

Entretanto, países como o Brasil tem uma história de surgimento e crescimento de favelas bem mais antiga. Aqui, as primeiras favelas surgem ao mesmo tempo da decadência e abolição da escravidão, ainda no final do século XIX. A população escrava "libertada" foi despojada de qualquer possibilidade de se tornar proprietária regular de terras e terrenos, e, também, de conseguir bons empregos no trabalho assalariado que crescia. Foram os ex-escravos e seus descendentes que construíram as primeiras favelas, pois não tinham nenhuma alternativa de habitação ao saírem das senzalas ou dos porões das casas de seus antigos donos. As primeiras favelas, é claro, surgiram aqui no Rio, não só porque era a maior cidade do país na época, mas porque foi a cidade de todo o mundo que teve a maior escravidão urbana de todos os tempos.

A segregação da população favelada foi, portanto, continuidade direta da segregação da população negra. A segregação, que já era econômica, social e racial, tornou-se também espacial. Quando a população das favelas começou a crescer incorporando outros segmentos étnicos além dos negros (brancos pobres e indígenas e seus descendentes), a segregação já muito arraigada foi transferida para estes outros setores também, mas o racismo nunca deixou de ser um elemento central no preconceito contra a favela.

No Rio e em algumas outras cidades de passado colonial expressivo (Salvador, Recife, etc), as favelas, ao contrário do que acontece na maioria das cidades mais novas, não estão exclusivamente na "periferia" geográfica. Aqui, há grandes favelas bem encravadas no centro histórico, no centro "moderno" e nos bairros mais antigos da população branca e rica (como a Zona Sul). Essa foi uma conquista histórica da população pobre, pois, se não podia ter habitações dignas e confortáveis, pelo menos conseguiu ficar próxima dos equipamentos urbanos e da oferta de emprego das áreas centrais. Mas, por outro lado, isso sempre gerou uma tensão muito maior entre a favela e o "asfalto", como se diz aqui no Rio, pois as classes privilegiadas não conseguiram impor uma segregação espacial tão completa como queriam.

Essa tensão cresceu com os fenômenos que se agravaram no capitalismo dito "neoliberal" a partir dos anos 70: desindustrialização e empobrecimento urbano, e proliferação de redes internacionais de crime organizado. Essas redes internacionais penetraram com tentáculos desorganizados porém mortíferos nas favelas e periferias, gerando uma situação de violência crescente, ao que o Estado, tradicionalmente violento e corrupto no trato com os pobres, respondeu com uma violência e corrupção ainda maiores.

Dentro desse conceito de reforma urbana como direito à cidade, é fácil compreender que ela só é possível dentro de um projeto maior de transformação profunda da sociedade como um todo...

- Qual a importância de uma reforma urbana no País?

Antes de tudo, temos que ter clareza do que chamamos de "reforma urbana". Eu concordo com quem vê isso como muito mais que a construção de "habitações populares". A reforma urbana radical deve ser garantir à maioria tradicionalmente segregada o direito à cidade. Isso quer dizer o direito de usufruir dos equipamentos urbanos (habitacionais, educacionais, culturais, de lazer, de saúde, etc) e das oportunidades econômicas que a cidade propicia. Não se trata de construir conjuntos habitacionais medonhos em periferias distantes sem infra-estrutura urbana e isolados dos centros econômicos, como foi feito no Conjunto Nova Sepetiba (Zona Oeste do Rio), por exemplo.

Além disso, no aspecto habitacional, uma reforma urbana digna desse nome nunca deveria ser a oferta de imóveis construídos de tal forma que não possam ser melhorados e ampliados pelas famílias que os ocupem. Eu conheço as casas de Nova Sepetiba, e mesmo como engenheiro digo que aquilo é um atentado contra a dignidade humana. Os terrenos são minúsculos, logo as casas só poderiam ser ampliadas com a construção de novos pavimentos, mas isso é impossível porque as casas não têm estrutura, ou seja, não têm colunas e vigas que permitam subir mais um pavimento. Penso que o engenheiro ou arquiteto que se presta a fazer e construir um projeto como esse para o Estado é tão perverso como os governantes que idealizam esse tipo de mostrengo habitacional.

Dentro desse conceito de reforma urbana como direito à cidade, é fácil compreender que ela só é possível dentro de um projeto maior de transformação profunda da sociedade como um todo. E essa transformação tem que significar reparação e justiça social.

Primeiro, reparação para toda a população que até hoje sofre as conseqüências da escravidão e do genocídio do passado recente, ou seja, os descendentes dos africanos e indígenas, que não por acaso são maioria entre os moradores das favelas. E quando falo reparação quero falar que essa população deve receber benefícios habitacionais, educacionais e outros, sem ter que pagar por eles, pois já foi muito espoliada ao longo da história, e até hoje "paga" por isso, às vezes com a própria vida. Um exemplo de reparação, ainda que muito limitado, são as cotas para negros e indígenas em universidades, que setores reacionários combatem.

Em segundo lugar, justiça social, o que significa reduzir drasticamente as desigualdades, e não há como fazer isso sem combater os privilégios das camadas favorecidas que sempre se beneficiaram da exploração e opressão da maioria. Mais concretamente, não há como financiar programas decentes de construção de moradias, escolas e hospitais (eu incluo aí a reforma e adaptação de imóveis já existentes, mas que se encontram abandonados ou mal utilizados), sem taxar pesadamente as classes ricas, em particular as grandes fortunas, e dentro dessas os grandes proprietários de terras e imóveis urbanos. Além do que, para construção de novos imóveis em áreas com boa infra-estrutura urbana, o que quer dizer em geral as áreas centrais ou "nobres" das cidades, seria preciso confiscar grandes propriedades urbanas, que não estão sendo utilizadas por causa da especulação imobiliária.

Não vejo outro caminho para a construção de uma sociedade melhor, mais pacífica e solidária, e para superarmos essa imensa crise urbana e social em que vivemos. Mas também entendo que será necessário muita luta, e muita vontade de mexer em preconceitos e privilégios há muito estabelecidos.

Segunda entrevista ( a Tatiana Lima)

Qual é o seu nome completo e profissão?

Maurício Campos dos Santos, sou engenheiro mecânico e civil.

Como começou seu envolvimento com as ocupações urbanas no Rio e por quê?
Meu primeiro contato com ocupações urbanas foi ainda nos anos 80, mais precisamente em 1987, quando aconteceu a Ocupação Jardim Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande. Foi a primeira grande ocupação organizada no Rio, nela estiveram envolvidos muitas companheiras e muitos companheiros com os quais eu militava naquela época, embora eu mesmo não atuasse na Zona Oeste, e sim em Niterói. Dessa ocupação nasceu um bairro que hoje deve ter mais de 30 mil habitantes, e que é mais conhecido como Carobinha. Não atuei diretamente lá, mas conhecia bem a situação e estava sempre em contato com militantes e moradores.

No início dos anos 90, junto com companheiros remanescentes dessa militância dos anos oitenta, passei a atuar visando um foco maior em favelas e bairros pobres, e foi a partir daí que me envolvi novamente com ocupações. Isso foi principalmente a partir da Ocupação 17 de Maio em 2003, em Nova Iguaçu, que foi muito conflituosa, com muita repressão, mas que recentemente obteve uma importante vitória judicial, apesar do assassinato de uma de suas principais lideranças, o Oséas.

Quantas ocupações urbanas hoje existem no rio?
Está aí uma pergunta provavelmente impossível de responder. Veja só, existem ocupações organizadas e não tão organizadas; ocupações de prédios, galpões ou terrenos; ocupações que geraram conflito judicial (ações de reintegração de posse) e outras que passam "despercebidas", enfim, é um mundo muito vasto e diverso. Só para ocupações de prédios no centro, por exemplo, o poder público dá uma estimativa de 30, mas penso que o número deve ser maior. Há regiões, como um grande trecho da Avenida Brasil, onde há vários galpões que de fora parecem abandonados, mas na verdade são ocupações. Já entrei num deles e vi que ali há não só habitação, mas também oficinas (mecânicas, de costura, etc) e depósitos. Agora, se você quer se referir a ocupações organizadas, ou melhor, ocupações com participação e apoio de grupos militantes mais politizados, com uma visão mais ampla da luta, então o número é bem menor, não creio que chegue a 20 em toda a área metropolitana.

As necessidades técnicas das comunidades pobres em luta são muitas, maiores do que normalmente se imagina.
Como funciona a organização e o dia-a-dia de uma ocupação urbana?
Outra pergunta para a qual há várias respostas. Depende de como a ocupação começou, do nível de organização e militância, etc. Posso falar com mais detalhe do funcionamento de ocupações de prédios na área do Centro nas quais participei, em menor ou maior grau. Nestas, nos primeiros tempos da ocupação, há uma vida coletiva bastante intensa, pois é necessário resistir às ameaças de despejo, por em funcionamento um sistema básico de abastecimento de
energia e água, bem como de esgoto; debater a divisão dos quartos e espaços coletivos, etc. Quando esses "perigos" e essas tarefas iniciais já são menos urgentes, a tendência é de as assembléias se tornarem mais espaçadas, o individualismo se fortalece, então nessa fase é que tem grande importância o desenvolvimento de iniciativas como centros culturais, bibliotecas, cursos, festas periódicas, experiências de produção coletiva, etc. Mas, em ocupações nessa fase mais "pacífica", o dia-a-dia não é muito diferente dos da maioria das comunidades e bairros pobres do Rio: as crianças que vão e voltam da escola; os adultos que saem para seu emprego ou, na maioria dos casos, seus "bicos" e trabalhos informais; os idosos e algumas das mulheres que permanecem em casa, etc.

Como você coloca sua profissão como uma ferramenta de ajuda aos movimentos sociais?

Eu comecei a militar de forma muito ativa ainda nos meus tempos de secundarista, e minha militância, mesmo nas ocupações, nunca esteve ligada principalmente ao fato de eu ser engenheiro. Na verdade, muitas vezes as pessoas ficaram surpreendidas de eu ser engenheiro e estar tão "metido em ocupação". Mas é claro que meu conhecimento técnico também tem sido útil em diversas ocasiões e em várias ocupações. Até para uma ocupação do MTST de São Paulo eu já fiz um laudo técnico, que felizmente contribuiu para que uma decisão de despejo fosse revogada. Esse é um dos aspectos, mais emergencial e mais ligado ao conflito jurídico, em que o trabalho de um engenheiro pode ajudar na luta, elaborando laudos e pareceres que refutem os argumentos supostamente "técnicos" utilizados para se tentar despejar uma ocupação.

Mas não é só isso, há várias outras possibilidades. Junto com outro colega engenheiro civil, por exemplo, fiz dimensionamento e projeto em croquis para um novo sistema de esgotamento sanitário na Ocupação Zumbi dos Palmares, que pode ser utilizado, quando houver recursos disponíveis, para resolver esse que é um dos principais problemas dessa ocupação específica, onde há muitas famílias e poucos banheiros para todos. Outro companheiro, o Carlos Martins, que é técnico instalador elétrico, fez um trabalho excelente na Ocupação Chiquinha Gonzaga logo no seu início, onde a fiação original praticamente não existia mais. E também fez os laudos da parte elétrica que foram anexados ao processo.

As necessidades técnicas das comunidades pobres em luta são muitas, maiores do que normalmente se imagina. Um dos trabalhos mais interessantes que já fiz foi um estudo para formas alternativas de geração de energia no Quilombo da Marambaia, no litoral sul do Rio. Lá, os quilombolas moram em área ocupada desde os anos da ditadura pela Marinha, e dependem dos militares para abastecimento elétrico. Como são em sua maioria pescadores, precisam de grande quantidade de energia para refrigeração do pescado, mas a Marinha não disponibiliza isso. Em meu estudo apontei alternativas e inclusive realizei medições, com ajuda dos quilombolas que conhecem bem as matas e cursos d'água da ilha, para uma possível geração hidroelétrica em pequena escala. Encaminhei tudo a um engenheiro elétrico da Coppe (UFRJ), mas não sei se a iniciativa foi adiante, o que é uma pena.

Colocar seu conhecimento e experiência técnicos a favor dos setores historicamente expropriados é uma forma prática de reparação, e uma grande ajuda para a luta, desde que isso seja feito de forma militante, ou seja, sem visar ganho econômico e sempre conversando e debatendo com as pessoas, para saber quais são suas reais necessidades. Nada de levar esqueminhas ou "soluções" mirabolantes ou "técnicas de última geração" aprendidas na universidade para as pessoas, de cima para baixo. As soluções técnicas mais apropriadas geralmente são as mais simples e comuns, os próprios moradores as sugerem, e é preciso partir daí, da clara intuição de quem sente a necessidade na pele.

Recentemente, o Rio foi palco de um grande conflito: houve o despejo das famílias da Ocupação Guerreiros do 234, com um forte enfrentamento com a polícia. Em sua opinião, o que está por trás de interesse de despejar essas famílias? O choque de ordem esta sendo usado como pretexto para as ações de despejos de ocupação em áreas de potencial especulação imobiliária?

Claro. Com eleição de Eduardo Paes, caiu o último obstáculo que existia para que o Estado pusesse em prática uma política radical de "limpeza urbana" a favor dos ricos. Antes, as disputas políticas entre estado e prefeitura e governo federal dificultavam uma ação coordenada do poder público contra os pobres, mas agora o terror é total. O maior símbolo disso foi como as forças repressivas dos três níveis de governo participaram da ação contra as famílias da Gomes Freire/Mem de Sá. A secretaria de ordem pública do Paes realizou a evacuação, sob pretexto de risco para as famílias, do prédio da Gomes Freire, tentando usar inclusive caminhões de lixo como nas operações de "choque de ordem". Depois, a Polícia Federal e a PM se uniram no despejo violento na Mem de Sá, das mesmas famílias.

Com a recente fase de crescimento econômico, aumentou o interesse da indústria e do comércio imobiliário no sentido de realizar investimentos nas áreas centrais do Rio. E ainda há a perspectiva da Copa, das Olimpíadas, etc. Hoje há vários projetos de grandes prédios e estacionamentos no Centro, como não se via há muito tempo, e é claro que a população pobre que mora e trabalha nessa região é vista como um estorvo pelo capital imobiliário. Existe um óbvio intento, mesmo não declarado, de substituir a população residente de baixa renda do Centro por uma população de classe média. E isso também tem seu lado racista, é claro, já que sem-teto e camelôs são em grande medida negros.

Se o que prevalecesse fosse a necessidade das pessoas, e não a ganância e o racismo do capital, é claro que o caminho seria implementar firmes políticas de geração de emprego e renda, construção de infraestrutura, equipamentos educacionais e de saúde, e adaptação de habitações a partir das centenas de imóveis abandonados que existem no Centro. Mas isso não dá lucro para ninguém, "só" traz bem estar para as pessoas...

Há quantos anos não existe uma política pública de habitação?

Se queremos falar de política pública de habitação decente, eu diria que não existe desde que surgiu o Estado brasileiro. Para ver como estamos mal, o último período em que houve algo que se poderia chamar uma política de mais longo prazo, foi durante a ditadura militar com seus BNH, COHABs e CEHABs. Mas todos sabemos que o que foi investido naqueles anos por todos estes órgãos não foi nada comparado ao que se gastou e se construiu para a classe média e a burguesia. Sem falar que a orientação geral era afastar os pobres para as periferias mais longe o possível das ditas "áreas nobres". E, para piorar, naqueles tempos qualquer tentativa de luta popular por habitação sofria uma repressão ainda mais medonha do que hoje. Mas mesmo assim houve luta, como em várias comunidades de Santa Cruz (Rolas, Curral das Éguas, etc), o que é uma história de coragem e heroísmo do povo que merece ser contada para todos algum dia.

Após o incêndio do prédio 510, na rua Gomes freire, o senhor fez um laudo em que trazia a informação que o prédio continuava em condições de moradia. Apesar disso, as famílias foram despejadas. A prefeitura chegou a recusar oferecer o auxilio aluguel de R$300 reais a família alegando que outras pessoas, que já estavam na fila esperando o beneficio seriam prejudicadas. Por que por mais que se prove a necessidade de pobreza destas famílias o Estado se recusa fornecer ajuda a elas?

Permita-me aqui uma resposta mais longa, um pouco técnica talvez. O que eu e outro engenheiro pretendíamos era fazer efetivamente um laudo, mas o prédio encontrava-se já lacrado e o acesso era impossível. Então, nos limitamos a uma apreciação técnica dos argumentos utilizados pelo juiz para manter a interdição do imóvel, contra o pedido de recurso apresentado pela Defensoria Pública. Já havia dois laudos, um da prefeitura (Defesa Civil) e outro do perito da Defensoria. Nenhum dos dois atestava comprometimento da estrutura do prédio, no máximo indicavam outros problemas de segurança que podiam ser resolvidos facilmente e sem a necessidade de remoção total das famílias. Mas o juiz fez uma leitura claramente tendenciosa desses laudos, e foi isso que nosso primeiro documento refutou, mas o magistrado permaneceu inflexível. Isso mostra que quando falamos da responsabilidade do poder público não devemos centrar nossas críticas apenas no governo, o judiciário tem tido um papel nefasto na perseguição e repressão aos sem-teto e aos pobres em geral.

No dia da retirada definitiva dos pertences das famílias, eu finalmente pude entrar no prédio, fiz uma vistoria e elaborei um laudo detalhado, com fotos e observações, embora ainda qualitativas. O que indiquei é que havia indícios preocupantes sobre a estrutura de algumas lajes que foram mais atingidas pelo incêndio, e que eram necessários e urgentes ensaios e medidas de deformações, ou seja, uma perícia quantitativa, para que se tivesse uma posição segura e definitiva sobre a estrutura. Indiquei claramente o que precisava ser feito, e no pior dos casos seria preciso demolir algumas das lajes e reconstruí-las. Esse laudo foi entregue à Defensoria e creio que tenha sido encaminhado à Justiça e à Prefeitura.

Surpreendentemente, menos de uma semana depois da retirada dos pertences, começou uma obra no prédio para fechar completamente o acesso a ele e eliminar o espaço debaixo das marquises onde as famílias estavam anteriormente acampadas. É um obra grande, três painéis de alvenaria com cerca de 50 m2 cada, bem acabados e com um portão de aço. Uma obra cara, feita em pouco tempo e provavelmente sem licitação. Com o que foi gasto, era possível fazer todos os ensaios e medidas que propus, e ainda talvez demolir as lajes atingidas, se fosse o caso. Vejam vocês a arbitrariedade, a irresponsabilidade e a parcialidade da prefeitura: para impedir a volta das famílias ou uma nova ocupação, e para favorecer o hotel que fica ao lado, realiza uma obra possivelmente irregular e cara num prédio em que existe um risco real a ser averiguado!

Diante disso, como levar a sério qualquer alegação do governo sobre problemas em conceder o aluguel social? Vejam, não é só a prefeitura, a decisão judicial que acatou a ação civil pública proposta pela Defensoria implicava também o estado, e ambos recorreram contra o pagamento. Claro que o problema não é falta de recursos, bastaria realocar dinheiro que é gasto em tantas coisas menos importantes que moradia para famílias. Ou, se necessário, cobrar um IPTU muito alto sobre os milhares de terrenos e imóveis improdutivos que existem pela cidade. O Estado, e aqui incluem-se os parlamentares que aprovam os orçamentos e os impostos, não faz isso porque não quer, porque protege e promove os interesses do capital acima de tudo.

Quantos prédios públicos abandonados existem hoje no Rio?

Prédios inteiros abandonados penso que não sejam muitos atualmente (já ouvi falar de 50 imóveis da União só no município), mas há uma grande quantidade de salas, casarões e terrenos públicos abandonados espalhados por toda a cidade. E ainda há aqueles imóveis que não são exatamente públicos ainda, mas têm uma dívida tão grande e impagável que na prática só podem ser encampados pelo Estado. Estimativas falam de 5 mil imóveis abandonados na região metropolitana, grande parte públicos ou endividados.

Ocupação

Segundo informações, a Ocupação Chiquinha Gonzaga conseguiu financiamento para a reforma do prédio e conseguirá regularizar a situação da ocupação? O senhor tem informações de como foi esse processo de regularização?

O que sei que existe até agora é uma cessão de uso do prédio, do Incra em favor da Secretaria de Patrimônio da União. O próximo passo seria algo como um contrato de cessão de uso ou coisa parecida entre a SPU e as famílias moradoras, mas não sei em que pé está isso. Enquanto as famílias, coletiva ou individualmente, não tiverem um documento assinado por elas que garantam o seu direito e sua permanência, nada está realmente conquistado, elas continuam reféns das chantagens e manobras do governo.

Temos que ter claro o que é importante quando falamos de regularização. O importante é a garantia da moradia, a garantia de que as famílias não serão despejadas ou removidas. Os governos geralmente falam em regularização no sentido de dar registros de propriedade individual a cada família, isso é estimular a propriedade privada e o mercado imobiliário, não a moradia. Em todo caso, a vontade de resistência e a organização da luta é o que decide a situação.

O que sempre propomos em relação a prédios e imóveis ocupados é que permaneçam públicos ou sejam estatizados, e que então se façam contratos de cessão de uso com os ocupantes, o que garante a moradia, o usufruto e mesmo a transmissão aos filhos, mas impede que os imóveis sejam vendidos como mercadoria. Essa é a forma de regularização mais legítima e de maior alcance social.

Projetos e recursos para a reforma, por seu lado, são importantes, mas deveriam acompanhar a regularização conforme defini antes. Você pode fazer um projeto e liberar recursos vinculados a um imóvel, mas não às famílias que o ocupam. Isso não garante e até pode atrapalhar a conquista e a garantia da moradia.

Quais são as medidas que o Estado e a Prefeitura do Rio deveriam adotar sobre o defict de habitação no Estado?
Antes de tudo, penso que você deveria incluir a União na pergunta, pois ela é proprietária de muitos imóveis urbanos, e é responsável por setores decisivos da infra-estrutura urbana. Primeiramente, deveriam impor taxas e impostos muito altos sobre os grandes proprietários de imóveis, e confiscar aqueles devedores. Com os recursos assim obtidos e com assistência técnica adequada, permitir que as próprias famílias sem moradia garantida reformassem e adaptassem os imóveis abandonados ou subutilizados passíveis de serem transformados em habitações dignas e confortáveis. Esses imóveis permaneceriam ou se tornariam públicos, com cessão de uso para as famílias.

Isso deveria ser feito prioritariamente nas áreas de melhor infra-estrutura urbana existente, como o Centro, a Zona Sul e algumas partes da Zona Norte. Mas é claro que, mesmo nessas áreas, unidades de educação e saúde públicas ainda são muito sucateadas, e um alto investimento teria que ser feito também, com recursos igualmente obtidos de confiscos ou taxações pesadas sobre os ricos. Só prover moradia sem serviços urbanos dignos não significa muita coisa.

A simples reforma e adaptação de imóveis deveria suprir a maior parte do déficit habitacional. Há uma estatística de 2004 muito citada, que diz que o déficit habitacional do Brasil é de cerca de 5,4 milhões de unidades, ao mesmo tempo em que há em torno de 6 milhões de imóveis abandonados. Se houvesse necessidade, recursos (junto com assistência técnica) deveriam ser repassados às famílias para que construíssem novas unidades. Mais uma vez, deveria se priorizar as novas construções em áreas já dotadas de infraestrutura urbana, o que implicaria provavelmente em confisco de propriedades ociosas em áreas valorizadas.

Isso é o básico. Os detalhes ficariam por conta do próprio povo, que com recursos, conhecimento e suporte técnico é capaz de verdadeiros milagres.

Pela apuração que fiz, existe um caso no Brasil de ocupação urbana que foi regularizada. O predio localizaod no centro de Porto Alegre foi todo reformado e hoje as famílias estão legalizadas lá. Isso mostra que o sonho é possível?

Acho o que mostra que o sonho é possível é o fato de famílias sem-teto, ao organizarem ocupações por todo o país, garantiram moradia, ainda que precária, para milhares de pessoas. Isso é muito mais que qualquer governo fez nos últimos anos, e tem obrigado os governos e toda a sociedade a encarar a questão da moradia como um problema social básico.

Esse caso de Porto Alegre, se não me engano, envolve o governo federal, e essa regularização e reforma parece fazer parte de um conjunto de iniciativas com que o governo Lula quer dar a impressão que está fazendo um programa habitacional de longo alcance. Não acredito nisso, Lula teve mais de cinco anos de governo para iniciar algo realmente decente (ainda em 2002 ele prometia transformar imóveis não utilizados da União em moradia), e só agora toma algumas medidas limitadas e ambíguas, com certeza de olho nas eleições de 2010. Além disso, os recursos têm beneficiado principalmente as grandes empreiteiras (que certamente irão "retribuir" em doações de campanha).

Mas é claro que esse exemplo de Porto Alegre mostra que não há nenhum fator técnico ou jurídico que impeça um programa habitacional coerente. O que existe são interesses de classes que se opõem a isso. Por isso, os trabalhadores e trabalhadoras sem-teto devem ter sua própria e forte organização de classe, e se unirem à luta de todos os trabalhadores e oprimidos. Sem isso, não há sonho da moradia digna que se realize.

 
 
 
 
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