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De perseguidos a perseguidores: a lição do sionismo
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2 de Junho de 2010
Não é exclusivo dos judeus o facto de entre os perseguidos se ter gerado uma reacção nacionalista que se converteu em imperialismo. Esta é a armadilha que o nacionalismo coloca às pessoas de esquerda. Por João Bernardo
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Pensando um pouco sobre a recente agressão de Israel ao navio Mavi Marmara e o à-vontade e a impunidade com que esse país tem espalhado o terror em seu redor, parece-me que a maior parte dos comentadores se limita ao óbvio para evitar a conclusão mais importante.
É do conhecimento geral que os judeus foram vítimas de grandes perseguições e que o nazismo fez do anti-semitismo um dos seus eixos principais. Desde o primeiro dia o regime de Hitler perseguiu os judeus e durante a segunda guerra mundial pretendeu exterminá-los. É também amplamente conhecido o tratamento que o Estado de Israel inflige aos palestinianos, espoliando-os e impondo-lhes um sistema de terror que ultrapassa tudo o que os racistas sul-africanos conseguiram fazer no tempo do apartheid. Ora, entre estes dois factos, os judeus como vítimas e Israel como agressor, não existe uma contradição mas, pelo contrário, um nexo lógico, e é para ele que procurarei chamar a atenção neste artigo. |
Oposição entre assimilacionistas e sionistas
Antes de mais, convém distinguir judeus e movimento sionista. Os judeus são um povo, definido por um conjunto de tradições e hábitos culturais em que a religião é uma parte componente, embora não indispensável. O sionismo é um movimento político que se propôs formar uma nação a partir do povo judaico, disperso desde há muitos séculos no seio de outras sociedades; o objectivo do sionismo era separar os judeus das sociedades onde viviam e conduzir uma corrente migratória para a Palestina, acabando por fundar o Estado de Israel.
Quando Theodor Herzl fundou o movimento sionista na passagem do século XIX para o século XX, ele só conseguiu interessar uma pequena minoria de judeus e praticamente não contou com o apoio de intelectuais judeus de prestígio . A esmagadora maioria dos judeus era composta por assimilacionistas, que, embora defendessem o direito a manter a sua especificidade cultural, defendiam também a sua plena integração nas sociedades onde viviam. Na Alemanha imperial a grande maioria dos judeus exibia um patriotismo nas raias do chauvinismo, e os judeus austríacos, em vez de se apresentarem como uma |

Teodoro Herzl |
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das nacionalidades do império, consideravam-se parte integrante da população alemã . Nas vésperas da primeira guerra mundial os sionistas estavam marginalizados no interior das suas próprias comunidades, mesmo no leste da Europa, apesar de serem aí especialmente violentos os sentimentos anti-semitas de uma parte da população , e o isolamento dos sionistas continuou, de um e outro lado do Atlântico, ao longo da década de 1920 . Na Alemanha posterior à primeira guerra mundial, durante a república de Weimar, os assimilacionistas contaram pelo menos com 95% dos membros das organizações judaicas , e na primeira metade da década de 1920 mais de 40% dos casamentos em que um dos noivos era judeu tinham como outro participante um não-judeu. Na Polónia, apesar de ter sido o país europeu onde o sionismo mais se desenvolveu, até à segunda guerra mundial a maior organização política judaica foi a Bund (Algemeyner Yidisher Arbeter Bund in Lite, Poylin und Russland, União Geral dos Trabalhadores Judaicos da Lituânia, Polónia e Rússia), partidária da igualdade de direitos, socialista e activamente oposta aos sionistas . Comentando o facto de em 1942 ser cada vez mais frequente o emprego do polaco em vez do yiddish nas ruas do ghetto de Varsóvia, o historiador judeu Emmanuel Ringelblum observou que o movimento de assimilação linguística fora já muito forte antes da guerra. Na verdade, Ringelblum estava especialmente bem colocado para apreciar a situação, porque ele conseguiu organizar clandestinamente uma rede de testemunhas e de informadores que lhe permitiu, com sacrifício da vida, deixar para a posteridade a narrativa das atrocidades praticadas pelos nazis na Polónia. |

Emmanuel Ringelblum
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Mesmo as vitórias eleitorais alcançadas pelos nacionais-socialistas não impediram que nas vésperas da nomeação de Hitler para o posto de chanceler os sionistas estivessem reduzidos na Alemanha, como nos demais países, a uma fracção diminuta da população judaica, 1% ou 2% segundo os seus próprios cálculos , e um relatório interno dos SS elaborado na Primavera de 1934 constatou que a maioria dos judeus alemães se mantinha favorável ao assimilacionismo . A partir de Junho e Julho de 1934, quando Röhm e as SA foram liquidadas e o fascismo estritamente racial de Hitler e Himmler triunfou sobre o fascismo de carácter social proposto pelos seus rivais na extrema-direita, uma das principais preocupações do nazismo foi excluir os judeus da sociedade alemã. Os assimilacionistas foram ilegalizados e perseguidos e os sionistas foram promovidos; mas, apesar disso, os judeus alemães não se mostraram entusiasmados pela Palestina. As autoridades britânicas na Palestina fixavam anualmente o número máximo de imigrantes permitido, e era a Agência Judaica, suprema autoridade sionista na região, quem repartia os certificados de imigração entre os judeus dos vários países. Ora, durante a década de 1930 só 22% dos certificados foram concedidos a judeus alemães. |
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Na Alemanha o sionismo só triunfou sobre o assimilacionismo porque o regime nazi perseguiu os assimilacionistas. O sionismo considerava os assimilacionistas como o principal inimigo e via com bons olhos tudo – perseguições e mesmo ocasionais massacres – o que afastasse os judeus das sociedades onde viviam. Por isso, desde muito cedo os dirigentes sionistas procuraram estabelecer acordos com governos hostis aos judeus e convencê-los de que ambos tinham o mesmo objectivo imediato . Se os anti-semitas queriam desembaraçar-se dos compatriotas judaicos e se os sionistas pretendiam aumentar o número de judeus na Palestina, por que não unirem os esforços?
Colaboração do sionismo com o nazismo
Durante a república de Weimar os sionistas alemães haviam mantido uma atitude passiva perante a ascensão do nazismo, considerando a hostilidade aos judeus tão lógica como a sua própria recusa em se integrarem na sociedade germânica. Para eles a solução do problema consistia na emigração para a Palestina e não no combate ao anti-semitismo no país onde tinham nascido, e desde a instauração do regime nazi em 1933 até ao começo da segunda guerra mundial foram muito poucos os sionistas a participar na resistência clandestina . Aliás, figuras eminentes do sionismo germânico expressaram publicamente a opinião de que a chegada de Hitler ao poder era proveitosa para os judeus porque comprometia definitivamente os assimilacionistas, obrigava todos os judeus a juntarem-se numa entidade única e reforçava a noção de identidade racial do judaísmo.
A célebre intelectual judia Hannah Arendt recordou que «naquele tempo era um facto da vida corrente que só os sionistas tinham possibilidade de negociar com as autoridades alemãs, pela simples razão de que a sua principal rival, a Associação Central dos Cidadãos Alemães de Confissão Judaica (Central-Verein deutscher Staatsbürger jüdischen Glaubens), à qual pertenciam então noventa e cinco por cento dos membros de organizações judaicas na Alemanha, especificava nos estatutos que o seu primeiro objectivo era a “luta contra o anti-semitismo”. De um dia para o outro, ela havia-se convertido, por definição, numa organização “inimiga do Estado” […] Nos primeiros anos, a subida de Hitler ao poder foi vista pelos sionistas principalmente como “a derrota decisiva do assimilacionismo”» . Ilegalizados os ideais de integração, calcula-se que a tiragem do semanário sionista alemão, que oscilara entre os 5.000 e os 7.000 exemplares, tivesse subido para cerca de 40.000 nos primeiros meses do novo regime, e as colectas de fundos realizadas pelo movimento sionista renderam o triplo em 1935-1936 do que haviam rendido em 1931-1932.
A Organização Sionista alemã via no anti-semitismo activo dos nazis uma oportunidade de aumentar o fluxo da emigração para a Palestina; e os dirigentes do sionismo mundial aprovaram esta orientação, muitas vezes contra os protestos de activistas de base, como sucedeu na própria Palestina . Logo nos primeiros dias de Abril de 1933, mais de oito anos antes de as autoridades do Reich terem tornado obrigatório o porte da estrela amarela pela população judaica, já um artigo assinado pelo chefe de redacção do semanário sionista alemão apelara para que os judeus tomassem eles próprios esta iniciativa, mostrando a vontade de se excluírem da sociedade germânica . Para que progredisse o estabelecimento na Palestina era indispensável que os judeus da diáspora se sentissem renegados pelos países onde haviam nascido, e assim o mesmo processo que permitiu aos hitlerianos a destruição gradual dos judeus possibilitou que os sionistas derrotassem os seus rivais assimilacionistas. «Desde o início que a direcção sionista se recusara de facto a opor-se à ideologia de expulsão defendida pelos nazis», escreveu um historiador judaico, acrescentando que esta atitude fornecia «uma indicação aos nazis de que os próprios judeus se dispunham a organizar a expulsão deles mesmos». A conclusão só podia ser uma. «Os dirigentes nazis […] constataram com alegria o facto de os sionistas aceitarem a expulsão dos judeus» . E não se tratava de uma expulsão qualquer, mas unicamente da concentração dos fugitivos na Palestina. A lógica da implantação de uma soberania judaica na Palestina apresentava-se como o reverso da lógica nacional-socialista de perseguição dos judeus. |
Aquele historiador judeu resumiu lapidarmente a situação: «O sionismo havia-se tornado um instrumento dos anti-semitas» . Os discursos e as publicações nazis continuaram a obedecer aos rancores de sempre, atacando todos os judeus sem distinção, mas na prática os procedimentos foram subtis e criou-se uma curiosa situação de que os sionistas saíram privilegiados, mesmo em termos legais. O facto de a esmagadora maioria dos judeus alemães estar integrada socialmente no país, dificultando a aplicação das medidas anti-semitas , converteu os assimilacionistas nos principais inimigos; e os sionistas, que pretendiam destacar os judeus do resto da população, apareceram como um auxiliar precioso e receberam os cargos dirigentes na nova instituição destinada a enquadrar os judeus do Reich. |

Milícias da Betar em Berlim, 1936 |
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A maior parte das medidas anti-semitas concentrou-se nos assimilacionistas, enquanto o movimento sionista pôde manter a sede aberta até Novembro de 1938 e, apesar das restrições impostas à sua actividade, recebeu em 1935 autorização para vestir com uniformes próprios os membros da organização juvenil, assim como a imprensa sionista, apesar das proibições que várias vezes a atingiram, foi a única em todo o Reich a ficar isenta da obrigação de conformidade com a doutrina nacional-socialista. Além de estimularem as comunidades judaicas existentes nas principais cidades a usar a língua hebraica, os dirigentes nazis, durante os primeiros anos do novo regime, incentivaram-nas a realizar festivais religiosos, culturais e desportivos, sob a égide do movimento sionista e contando com a presença benévola de funcionários da Gestapo. |

Victor Klemperer |
Esta convergência de interesses foi clara para alguns contemporâneos e encontramo-la estigmatizada ao longo do diário mantido por Victor Klemperer, um professor universitário alemão de origem judaica, linguista e especialista em literatura francesa. Ele não poupava os sarcasmos ao mencionar a colonização sionista da Palestina e numa página de Outubro de 1933 exprimiu simpatia pela revolta dos árabes palestinianos, equiparando o seu destino aos dos índios americanos. «Em que é que os sionistas se distinguem dos nazis?», exclamou Klemperer em 1936, e abriu o ano de 1939 com a afirmação de que o sionismo é «puro nazismo». «Não existe qualquer questão judaica na Alemanha ou na Europa ocidental», escreveu ele passados poucos dias. «Quem quer que diga o contrário está só a aceitar e reforçar as teses falsas do NSDAP [o partido nazi] e a servir a sua causa». Klemperer invocou o elevado número de casamentos entre judeus e não judeus como prova de que os judeus haviam sido inteiramente assimilados pela sociedade alemã e acrescentou que o ambiente de fricções no qual os judeus puderam ver-se envolvidos antes da chegada de Hitler à chancelaria não fora mais grave do que as hostilidades que opunham protestantes e católicos ou prussianos e bávaros. «Existe uma única solução para a questão judaica na Alemanha e na Europa ocidental: a derrota daqueles que a inventaram. […] A causa sionista, tanto a pura como a religiosa, interessa |
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apenas a fanáticos e não diz respeito à maioria […]». Em meados de 1940, Klemperer voltou a estabelecer a igualdade entre sionismo e hitlerismo. «Hitler é o mais importante promotor do sionismo […]», denunciou ele nos últimos dias de 1941. |
No ano seguinte, além de ter novamente equiparado os sionistas aos nacionais-socialistas, Klemperer observou a afinidade dos escritos políticos de Theodor Herzl, o fundador do sionismo, com a doutrina hitleriana . «Só podemos resolver a questão judaica se nos libertarmos daqueles que a inventaram», havia ele declarado no início de 1939. Mas isso sucedeu tarde demais.
Antes de encetarem a «solução final» e chacinarem sistematicamente os judeus, os dirigentes nazis prosseguiram uma política dupla, por um lado, reduzindo progressivamente os direitos cívicos e profissionais dos judeus e confinando-os depois em campos de concentração e, por outro lado, estimulando a sua fixação na Palestina. Da estreita colaboração entre os dirigentes sionistas e o departamento SS especializado nestes assuntos resultou a criação de uma rede de emigração, que continuou a funcionar mesmo depois do início da guerra. As autoridades judaicas da Palestina destacavam regularmente emissários para contactar os SS ou directamente a Gestapo, de maneira a aumentar o fluxo de emigrantes. Estes agentes de recrutamento sionistas foram por vezes autorizados a visitar os campos de concentração e a escolher entre os detidos aqueles que preferiam expedir para a Palestina, homens de negócios e jovens vigorosos. Nas palavras de Hannah Arendt, «a maioria dos judeus, que não havia sido seleccionada, ficou inevitavelmente confrontada com dois inimigos – as autoridades nazis e as autoridades judaicas». O aparente empenho dos nacionais-socialistas no êxito dos colonatos judaicos chegou ao ponto de os SS criarem algumas fazendas experimentais, onde os candidatos à emigração aprenderam técnicas agrícolas modernas que lhes permitiram depois cultivar com eficácia e produtividade as terras tomadas aos árabes. |

Medalha comemorativa da visita de von Mildenstein à Palestina |
As relações eram tão íntimas que em Abril de 1933 o barão von Mildenstein, perito SS para as questões judaicas, partiu para a Palestina a convite da Organização Sionista Mundial e com expressa autorização do partido nazi. Passeando-se por Tel Aviv e visitando os colonatos, von Mildenstein ficou a tal ponto interessado que no ano seguinte publicou uma série de reportagens sobre a sua viagem. Chegou mesmo a ser cunhada uma medalha em comemoração do acontecimento, com a cruz suástica gravada numa |
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face e mostrando na outra a estrela de David. A visita de von Mildenstein teve uma segunda versão quatro anos depois, quando o seu antigo subordinado Adolf Eichmann, promovido entretanto a especialista SS das questões judaicas e encarregado de organizar a emigração de judeus – e mais tarde o seu extermínio – foi convidado pelos dirigentes sionistas a visitar a Palestina e a conhecer os colonatos. Mas, chegados a Haifa, Eichmann e o seu superior hierárquico não conseguiram obter um visto de entrada das autoridades britânicas e viram-se obrigados a retroceder para o Egipto, onde tiveram várias reuniões com um representante sionista. De acordo com o relatório apresentado pelos dois membros dos SS, o agente sionista comunicara-lhes o apreço dos nacionalistas judeus pela política nacional-socialista, que favorecia a emigração para a Palestina, e decerto em sinal de gratidão prestara-lhes informações acerca da actividade clandestina dos comunistas, incluindo os comunistas alemães. |
Esta política de cooperação atingiu desde cedo uma expressão muitíssimo elaborada na Ha’avara, que significa Transferência, nome dado correntemente a um conjunto de instituições, próximo dos sistemas de clearing, resultante do acordo comercial e financeiro que as autoridades sionistas estabeleceram em Agosto de 1933 com o Ministério da Economia do Reich e com o Ministério dos Negócios Estrangeiros para permitir a transferência de fundos pelos judeus alemães que desejassem fixar-se na Palestina. Este acordo manteve-se em vigor até ao começo da guerra mundial e, simplificando muito os seus termos, o emigrante potencial podia depositar uma soma em marcos (a moeda alemã) num banco na Alemanha, em conta bloqueada; em seguida, ele assinava um contrato com um exportador alemão para enviar mercadorias para o estrangeiro, geralmente para a Palestina, embora pudessem também ter outros destinos; o exportador alemão era pago em marcos, com o dinheiro existente na conta bloqueada; a Agência Judaica da Palestina encarregava-se da venda das mercadorias exportadas; e uma vez desembarcado na Palestina, o recém-chegado recebia em libras esterlinas o produto dessa venda, que lhe era entregue pela Agência Judaica. As autoridades nazis impunham condições especialmente desfavoráveis aos emigrantes e a economia germânica beneficiava com o fluxo das exportações. Mas, por seu lado, aqueles judeus que tinham fortuna suficiente para participar na Ha’avara reduziam as perdas acarretadas pelo abandono do país, que eram três vezes mais elevadas, ou cinco vezes mais elevadas, quando a emigração ocorria fora deste sistema. Ao mesmo tempo, os imigrantes viam-se detentores de investimentos bastante apreciáveis no novo lugar de residência. É certo que quanto aos haveres da comunidade judaica alemã, globalmente considerados, os efeitos da Ha’avara não foram muito significativos, mas foram muitíssimo consideráveis sob o ponto de vista da economia judaica na Palestina. Cerca de 60% dos investimentos totais realizados na Palestina entre Agosto de 1933 e Setembro de 1939 resultaram de transferências executadas no âmbito do acordo, sendo estes capitais aplicados sobretudo nos ramos da metalurgia, do têxtil e da indústria química, mas também em fábricas de cimento, de fertilizantes e de instrumentos agrícolas. Foi assim que nasceram algumas das maiores empresas industriais do futuro Estado de Israel. Estas somas asseguraram grande prosperidade à Palestina num período em que todo o mundo, excepto a União Soviética, sofria uma gravíssima e prolongada depressão económica. Convertida numa importante instituição bancária e comercial, no auge da actividade a Ha’avara empregava um pessoal técnico de 137 pessoas nos seus escritórios de Jerusalém. Depois de analisar detalhadamente esta questão, um historiador judeu concluiu que a Ha’avara foi indispensável para a constituição do futuro Estado de Israel.
A hábil conversão das perseguições aos judeus do Reich em investimentos na Palestina adquiriu ainda maior amplitude com a criação da Agência Internacional de Comércio e Investimentos. Todas as somas enviadas a partir do estrangeiro com o objectivo de ajudar judeus residentes no Reich deixaram de ser entregues directamente aos destinatários e, através daquela Agência, passaram a ser creditadas a um departamento da Organização Sionista na Palestina, entrando no quadro dos mecanismos estabelecidos pela Ha’avara. Deste modo, mais de 70.000 doações, correspondentes a uma soma total de quase 900.000 dólares, em vez de serem empregues para aliviar os sofrimentos dos judeus perseguidos foram usadas para o desenvolvimento económico da Palestina judaica.
Chegara-se a uma situação paradoxal, pois ao mesmo tempo que judeus de vários países procuravam a todo o custo organizar o boicote dos produtos do Reich, a Organização Sionista Mundial violava as barreiras e a Palestina encontrava-se inundada de artigos alemães. «Aparentemente, as relações económicas entre a Alemanha nazi e a comunidade judaica da Palestina eram excelentes», escreveu um historiador judeu, a maior autoridade sobre o genocídio, e outro historiador judeu, depois de analisar detalhadamente as conversações que levaram ao estabelecimento da Ha’avara, resumiu a situação: «Em breve os dirigentes sionistas compreenderam que o êxito económico da futura Palestina judaica estaria indissociavelmente ligado à sobrevivência da economia nazi».
Mas a simpatia de que o fascismo beneficiava entre os dirigentes sionistas não se limitou ao caso do Reich. |
Colaboração do sionismo com o fascismo italiano
Inicialmente Mussolini considerara que o estabelecimento dos judeus na Palestina reforçaria politicamente a Grã-Bretanha e, portanto, colocaria em risco as pretensões imperiais da Itália no Mediterrâneo. Na primeira audiência que concedeu a representantes do sionismo, em Dezembro de 1922, pouco depois de ter alcançado o poder, Mussolini declarou-lhes que considerava aquele movimento como um instrumento da política de Londres. Chaim Weizmann, presidente da Organização Sionista Mundial, visitou Mussolini pela primeira vez em Janeiro de 1923, sem conseguir alterar-lhe a posição relativamente ao estabelecimento judaico da Palestina.
No entanto, a atitude do Duce mudou, e em 1926, ao receber de novo Weizmann, deixou-o convencido de que já não se opunha ao projecto sionista e que ajudaria a implantar uma soberania judaica na Palestina desde que ela não se mostrasse dependente da influência britânica. Em 1926 Mussolini descobrira que podia utilizar o sionismo para criar dificuldades à Grã-Bretanha. A partir de então os principais dirigentes sionistas mantiveram contactos regulares |

Chaim Weizmann |
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com Roma e a imprensa sionista mundial expressou o seu apreço pelo regime fascista. Recebendo Chaim Weizmann em 1934, Mussolini prometeu-lhe apoio, afirmou que Jerusalém não podia tornar-se uma capital árabe e declarou-se favorável à criação de um Estado judeu na Palestina, com a condição de não estar na dependência da Grã-Bretanha. Em contrapartida, Weizmann, que era um universitário e um investigador na área da química orgânica, parece que de muito mérito, ofereceu a Mussolini os seus préstimos para desenvolver uma indústria química e farmacêutica na Itália, tornando o país independente da Alemanha nestes ramos. Mas embora ele prometesse recrutar pessoal especializado e mobilizar investimentos, na prática nada resultou. |

Vladimir Jabotinsky |
Um fascismo sionista
No Executivo Sionista foi Vladimir Jabotinsky quem encabeçou a oposição da direita radical à presidência de Chaim Weizmann, moderado e conciliador. Jabotinsky foi-se autonomizando progressivamente do Executivo, demitindo-se em 1923, dois anos depois de ter sido eleito para esse órgão, e lançou em 1925 a Organização Revisionista Sionista, que converteu mais tarde em União Mundial do Movimento Revisionista, enquanto tendência interna do sionismo. No Congresso Sionista Mundial de 1931 os revisionistas contaram com 25% dos delegados, constituindo a terceira maior tendência, o que mostra que de modo algum podiam ser subestimados e possuíam uma efectiva capacidade de pressão. No congresso seguinte, em 1933, apesar de divididos internamente eles obtiveram cerca de 20% dos delegados e continua. |
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