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Quem é a “nova” direita? (Parte I)

 Seria ingênuo esperar que os êxitos eleitorais alcançados por partidos e movimentos de esquerda, em vários países latino-americanos, e a correspondente instalação de governos progressistas, se repetiria sem suscitar uma contra-ofensiva das direitas e dos interesses imperiais ou transnacionais vinculados com elas. Porém agora esta contra-ofensiva não é uma mera reedição voluntariosa das direitas que conhecíamos, e sim, acompanham-se de novidades que será preciso avaliar.
  Os logros que ditas esquerdas obtiveram desde finais dos anos 90, expressaram respostas populares tanto ao território da situação material quanto das expectativas de grandes massas latino-americanas, como a correspondente mudança de seu estado de ânimo no momento de se ampliar suas possibilidades de reação política. Porém, com

A nova direita

os matizes próprios de suas respectivas circunstâncias nacionais, tais êxitos foram vitórias conseguidas especificamente no campo político, sem que, até agora essas vitórias contaram com as condições requeridas para agitar outros planos sociais. Ainda assim, estas esquerdas tem provado que, até o atual nível do desenvolvimento e inquietude sociopolítica de seus países  da região, elas não só são capazes de administrar o regime capitalista melhor que as próprias direitas, senão que também podem fazê-lo de formas que tem melhorado significativamente as condições de vida  de milhões  de latino-americanos. Ainda que, mesmo assim tem mostrado que ainda não podem substituir, por esta via, o regime existente por outra formação histórica mais avançada.

A contra-ofensiva.
Se bem que no terreno político o grande capital e seus políticos, partidos e meios de comunicação sofreram um importante revés nesses países latino-americanos, os núcleos principais das direitas conservaram seus instrumentos básicos de atuação, penetração e poder. Apesar do inicial desconcerto que tenham padecido no plano subjetivo, no essencial salvaram os instrumentos básicos do sistema político previamente estabelecido, assim como o controle dos meios de comunicação mais poderosos. É dizer que nestes anos as esquerdas venceram politicamente as formas tradicionais das direitas, porém não derrotaram a direita como tal.
  Finalmente, após uma gradual revisão destas experiências, os talentos e meios de comunicação das direitas, hegemonizadas agora por capital financeiro, decantaram e renovaram suas opções estratégicas e reviveram suas opções políticas. Desde então, sua contra-ofensiva tem vindo articulando-se tanto nos países onde alguma corrente da esquerda ganhou eleições, ou esteve perto de ganhá-las, como também onde isso não ocorreu.
  O clima apropriado para que essa contra-ofensiva possa incidir nas capas sociais subalternas se beneficiou com o ambiente de confusão ideológico-cultural que veio após o refluxo dos projetos revolucionários dos anos 60 e 70, o colapso do campo socialista e a URSS, a ofensiva neoconservadora e o “pensamento único “ dos 80 e 90, junto com a falta de alternativas políticas para lhe dar  aos mal estares e inconformidades sociais desatados após os sub-seguintes “ reajustes” neoliberais, com seus abusivos  e desoladores efeitos.

   Nesse ambiente, a ofensiva político-cultural da direita neoliberal encontrou mais criticas que contrapropostas da esquerda e, por conseguinte, uma oportunidade de recolher e defender em seu beneficio  parte dos desgostos e frustrações sociais característicos daquele período.
  Além do mais, temos presenciado uma metamorfose da direita que, por sua vez, adicionalmente busca induzir as esquerdas uma metamorfose paralela, moldada na medida do interesse estratégico dessa “nova”direita.
  Para tais propósitos, a participação de agências oficiais, fundações privadas e interesses empresariais dos Estados Unidos e alguns países europeus não se tem ocultado.

Ao falar da emersão da “nova” direita na América Latina não supomos que ela seja uma corrente política e ideológica homogênea em toda essa diversidade de países,

Exemplo ostentável é o que em Panamá o sarcasmo local chamou “o pacto da Embaixada” quando, durante a campanha eleitoral de 2009, a embaixadora norte americana convidou  as personalidades políticas locais a presenciar da sua  residência a tomada de pose do presidente Barack Obama. Durante a velada, enquanto os demais convidados olhavam a pantalha, sem dissimular aparências os auxiliares da anfitriã levaram a sala contigua os principais rivais da direita, os quais ali acordaram a aliança que pouco depois permitiria derrotar o governante partido social democrata e instaurar um regime de “nova direita". Uma bateria de fotógrafos da imprensa, citados de antemão, cobriu essa reunião paralela, sem se ocupar de Obama.

 Articula-se outro modelo.
Ao falar da emersão da “nova” direita na América Latina não supomos que ela seja uma corrente política e ideológica homogênea em toda essa diversidade de países, nem que a mesma expresse um modo de pensar e atuar que possa considerar-se inédito. Na realidade, se trata de um conglomerado onde coincidem múltiplos interesses, cujos objetivos medulares, métodos e discursos tem antigos precedentes na reação chauvinista que na Europa se opôs a aceitar a liberação das colônias na África e  Ásia e, de forma mais ostentável e recente, na versão estadunidense de Revolução Conservadora anglo-americana dos anos 80.
As direitas tradicionais latino-americanas como expressão política das elites socioeconômicas ou “oligarquias” associadas a uma hegemonia estrangeira estiveram intimamente associadas aos regimes de democracia restringida e de ditadura militar que predominaram nos anos da Guerra Fria, em dois sentidos. O primeiro porque na época das mobilizações democráticas, nacionalistas e progressistas dos anos 60, bateram as portas dos quartéis para solicitar  a repressão e instaurar governos autoritários. O segundo porque, o amparo dos conseguintes regimes ditatoriais, não só salvaram seus antigos interesses mais também incursionaram nas novas oportunidades do capitalismo dependente, com as do setor de serviços, tanto mais prometedoras nos tempos de globalização.
Não obstante, nos 80 já era inocultável que as sociedades latino-americanas assim como o próprio capitalismo não só haviam crescido, mas também  tinham se voltado muito mais diversificadas e complexas, experimentavam novas necessidades e demandavam formas de gestão mais avançadas. Como assim mesmo requeriam outro gênero de governo, capaz de infundir esperança nas reformas neoliberais, coordenar sua aplicação e administração politicamente sua implantação e conseqüências.
Para isso se requeriam transições controladas dirigidas a constituir regimes mais legitimados e eficientes, com renovação dos espaços para a distensão social, a circulação de idéias e a inovação. A dúvida ficou entre propiciar uma democratização em doses o se ater as opções de desordem ou revolução que já começavam a se incubar. Isso  implicou que a própria elite socioeconômica e suas formas de expressão política também deverão levar a cabo suas respectivas transições a novas formas de governar. Onde a oligarquia local foi relutante, seus poderosos associados estrangeiros deverão intervir mais diretamente na tarefa de empurrar essa revolução.
Na necessidade de dispor de novas alternativas políticas, esse foi um período de “modernização e globalização política” propicio para as performances da democracia cristã. Como também a de partidos e dirigentes timidamente social-democratas, saídos uns da reconversão de personalidades liberais e outros da assimilação de ex- socialistas amolecidos pelos rigores da Guerra Fria. Finalmente uns e outros, as vezes em substituição dos antigos partidos liberais e conservadores seriam os beneficiados políticos visíveis dos pactos de transição previamente negociados com altos mandos militares e ambientes  civis empresariais.

A nova direita1

Porém cedo ou tarde qualquer transição no fim se esgota. Os novos regimes de democracia acordada   e restringida, quase sempre atrelados  sem remédio a missão de administrar as formas neoliberais, as aberturas e privatizações, assim como a redução e desmantelamento das faculdades e os poderes do Estado, pouco mais tarde deverão assumir a responsabilidade pelas trágicas seqüelas sociais e os descontentamentos que essas reformas precipitaram, e seus altos custos políticos. Regimes que por um tempo gozaram de bom nome e certa autoridade cívica uns anos depois foram desbordados pela inconformidade popular.
Ao fechamento desse período, o que ficou foi uma estendida percepção não só do descalabro econômico, mas também do esgotamento do sistema político instaurado, traz a “oleada” democrática, incluindo o esgotamento dos seus partidos e liderança mais representativos.  generalizou-se a tendência igualmente instigada pelos grandes meios de comunicação a responsabilizar o sistema institucional, aos partidos e estilos políticos, e aos parlamentos, pelas consequências

da gestão neoliberal: a fragilidade do emprego, a degradação dos serviços e a segurança social, o individualismo sem solidariedade, a corrupção, a insegurança nas ruas, a angustia das classes médias, etc.

É claro que, se ao Estado  tiram-lhe as faculdades e os meios necessários para regular a economia e intervir em seu curso, isso deu ilimitadas liberdades aos investidores e especuladores para ampliar os negócios lícitos e também os ilícitos. Com essa liberação das atividades econômicas e financeiras também veio sua desmoralização, com suas conhecidas conseqüências no campo da segurança cidadã  e a segurança pública.
A quem culpar, depois, por estes novos males? Que fazer para acabar com eles, e de uma vez por todas? Para a direita, os males que ela previamente causou através da desregulamentação agora devem se remediar por meio da “mão dura”. Porque para a crônica sem medo o intencionalmente superficial a culpa está nos maus costumes e nos indivíduos, já seja porque é mais difícil desentranhar as estruturas e processos sociais ou, antes bem, porque se quer evitar que se  as questione. Enquanto os meios acadêmicos e os lideres de esquerda investigam, explicam e comparam opiniões e propostas, à “nova direita" lhe basta uma argumentação mais cosmética e expedita, livre de maiores fatigas intelectuais.
Porque essa direita vem a salvar o fundo e os desejos do sistema socioeconômico vigente, buscando não apenas preservá-lo e sim “liberá-lo” “ da desordem de restrições que o humanismo, a tradição liberal e as conquistas do movimento popular  haviam lhe imposto em anteriores tempos, e reinstituir as formas de hegemonia e de gestão de classe que mais lhe convêm. Esta direita busca despir a economia capitalista para restabelecer as regras do capitalismo selvagem e vem determinada a tomar um atalho para executar esse propósito sem envergonhá-lo com pudores, antes  que alguém mais se adiante a levantar outra alternativa. De lá o estilo macho próprio de tal missão reacionária, que não aceita perder tempo em escrúpulos nem disquisições.

Com o qual essa direita é “nova”por seus métodos, formas e procedimentos enquanto que suas intenções e conteúdos são mais retrógados que conservadores sem velhas dissimulações , seus objetivos vem de época anterior ao desenvolvimento de tempos da pós-guerra.

Como movimento intelectual “meta-político”, trabalhou a margem dos partidos e desenvolveu um corpo doutrinal com o que fundamentou uma “verdadeira cultura de direita” o qual, ademais do tema migratório, também abrangeu  outros assuntos polêmicos, como os da irrupção do terceiro mundo, o aborto, a revisão crítica do cristianismo...

Nova direita e racismo pós-moderno.
Na Europa dos anos 80, baixo a ofensiva neoconservadora da primeira ministro Margaret Tacher e o presidente Ronald Reagan associada a sua vez a implantação do neoliberalismo, algumas das categorias conceituais que caracterizaram ao quefazer político e cultural da pós-guerra mudaram de preeminência. Com o impacto das mudanças tecnológicas, os imponderáveis da globalização, as crises econômicas e sociocultural, o questionamento de dos sistemas políticos e de representação, a imigração, o medo ao desemprego e a perda de status social, se incrementaram as fobias xenófobas e racista em detrimento das diversas manifestações da luta de classe.
Entrou em cena uma direita pós-industrial, que já não invocava a tradição fascista, e sim que candidatou a defesa da identidade nacional ameaçada pela globalização cultural, criticou o desmantelamento dos benefícios do Estado de bem estar, reivindicou a preferência pelos conterrâneos sobre os imigrantes, e repudiou a renuncia as cotas de soberania cedidas nos processos de integração a associações supranacionais como a OTAN e a União Européia.
O repudio aos imigrantes encabeçou as consignas dos novos partidos de extrema direita. O dilema entre o nacionalismo e o consumismo e o cosmopolitismo a preferência pela mestiçagem, que desde os anos 60 havia prevalecido como expressão positiva da internacionalização da cultura, nos anos 80 perdeu terreno frente a opção excludente que saiu a exigir que se criaram entidades nacionais mais fechadas e fortes.

Como expressão teórica dessa alternativa destacou a chamada Nova Direita francesa. Seu porta-voz mais notório, Alain de Benoist, já nos anos 60 havia militado no nacionalismo colonialista que repudiou o dialogo e a paz na guerra de Argélia. Esta direita reivindicou que Francia se constituísse em baluarte da preeminência européia e defensora da superioridade do homem branco respeito aos povos “inferiores”, o que levava demandar um Estado forte, autoritário e corporativo. Porém não o fez levantando meras consignas, e sim procurando sustentar essas idéias como parte de uma concepção mais abrangente e sistemática.
Após a derrota em Argélia, a direita tradicional francesa ficou submissa pelo gaullismo. Nos anos 80 essa Nova Direita elaborou uma proposta doutrinal dirigida a devolver independência e discurso a esse setor. Como movimento intelectual “meta-político”, trabalhou a margem dos partidos e desenvolveu um corpo doutrinal com o que fundamentou uma “verdadeira cultura de direita” o qual, ademais do tema migratório, também abrangeu  outros assuntos polêmicos, como os da irrupção do terceiro mundo, o aborto, a revisão crítica do cristianismo, do liberalismo e marxismo, o questionamento da União Européia e o do imperialismo norte-americano.
Esse movimento se reconheceu influído pela “Revolução Conservadora” alemã de tempos da República de Weimar, nutrida por Nitzsche, Mohler, Jünger,Heidegger, Spengler e outros, que em sua  época repudiou os legados da  Revolução Francesa e do liberalismo décimo nono. Alegou assim mesmo que o fator cultural em particular as crenças e representações simbólicas é quem condiciona a vontade e a ação humana e que, por fim, as idéias dominantes são o eixo do devir da história, antes que qualquer outro fator, como a economia.
Esse movimento também postou um concepção  biológico-cultural que exaltava a raiz indo-européia de dito “povo europeu”, cuja identidade defendeu frente a colonização cultural anglo-americana e a penetração de imigrantes de outras regiões, especialmente do terceiro mundo.

Por outra parte, denunciou a suposta hipertrofia do igualitarismo e o universalismo derivados do cristianismo e das idéias do século XVIII empreendeu uma critica geral da cultura acidental e a modernidade, em seus aspectos tantos religiosos como seculares, junto com crítica da sociedade mercantilista e de consumo.
Nos anos da Guerra Fria, Benoist sustentou que Europa deveria ressurgir “frente a ditadura do Gulag e a de Bem estar”. Traz  a derrubada do chamado Campo Socialista, manteve que o principal inimigo era o liberalismo atlântico-americano ou “ocidental”,assim como seus “substitutos” a socialdemocracia e o modelo de democracia baseado em um consenso passivo  subordinado ao egoísmo do interesse econômico. A sua vez, negou que sobre a diversidade dos povos pudera implantar um modelo único de democracia, e postou uma democracia orgânica que, fundada na soberania nacional e popular, não seria antagônica a um poder forte porque plasmaria as noções de autoridade, de seleção e elite.

Guerra2

Nesse contexto, Benoist assinalou um conjunto de outros problemas contemporâneos.
Com a premissa de hoje por hoje os conhecimentos se multiplicam aceleradamente sem que o conjunto das suas consequências cheguem a se compreender, e que a par, o mundo integrado por conjuntos fechados  é substituído por um, constituído por redes  interconectadas, argumento que é indispensável para revisar  as idéias e a institucionalidade vigente.
Em particular, destaco a importância dos partidos, os sindicatos, os governos e as demais formas estabelecidas para a conquista e exercício do poder. Ao que acrescentou a obsolescência dos campos e delimitações que tradicionalmente haviam caracterizado a modernidade,tais como o caso da distensão política entre a direita e a esquerda, que a Nova Direita substituiria.
No plano moral, Benoist criticou a sociedade contemporânea que, por demasiado permissiva, propicia a perda dos valores morais, e assinalou um conjunto de males que afetaram a milhões de pessoas, como inseguridade nas ruas, a violência generalizada, a precariedade da vida a “barbárie”das relações sociais e a perda da cultura do respeito,etc.
Em contra partida, lutou por fortalecer a família e os signos da identidade nacional, que o pensamento neoconservador crer fundamentais, para recuperar a coesão e disciplina sociais frente as ameaças da multiculturalismo social. Assuntos que, recalcou, exigem um claro estabelecimento das hierarquias, uma maior preeminência das obrigações frente as direitos e, claro,fortalecer a autoridade.
Com a diversidade de matizes que caracterize  cada tempo e circunstância locais,as postulações de Benoist ainda expressam a grande parte da extrema direita e, sob o brilho dos estilos e recursos atuais, o da “nova direita.
Antecedente político.
Uns anos depois, no inicio do século XXI era evidente que os principais referentes da direita européia os De Gaulle, Andreotti, Tatcher, Kohl ou Chirac ainda correspondiam ao estado de coisas que reinava quando essa região se dividia nos blocos, o oriental e o ocidental, respectivamente sujeitos as hegemonias soviéticas e estadunidense. Mas a respectiva principal dos europeus havia passado a ser outra: construir uma Europa unitária capaz de congregar um grande espaço econômico e político emancipado da tutela norte-americana.

Nessa etapa inicial, o motor das transições que permitiram avançar no projeto da União Européia foi a fogosa socialdemocracia desse então, que ainda não dava sinais de abandonar o projeto social nem a identidade política que historicamente a haviam caracterizado, os quais mais tarde perderia junto com boa parte de sua credibilidade e eleitores  traz seu conciliar suas respostas com as do neoliberalismo, baixo o fluxo oportunista da “terceira via”.
(A sansão), os personagens mais ilustres da direita européia eram José Maria Aznar e Silvio Berlusconi, nenhum capaz de liderar um novo projeto regional para essa vertente política. AZnar, por sua incapacidade para transcender sua formação franquista. Berlusconi, por sua catadura moral, subordinada a sua avidez empresarial. Ambos, aferrados a seus respectivos localismos políticos que longe de entender a globalização como uma oportunidade a escala européia, se reduziam a tomar seus respectivos países como cotos onde fortalecer seus interesses partidários, com o controle e até a apropriação dos meios de comunicação e de empresas por privatizar.
Assim as coisas ,após a desaparição da URSS, as mudanças na China e o aceleração da globalização, ao final do século XXI em Europa a direita ainda carecia de um projeto e um liderança atualizados, enquanto que a socialdemocracia antes uns que outros havia começado a degradação de sua consistência programática e política, o que agora ainda busca como remediar.

A liderança desempenhada pelo Gerhard Schoroeder dos primeiros tempos e por Leonel Jospin na construção do projeto europeu ainda demoraria em ser substituído pelo dos direitistas Angela Merkel e Nicolás Sarkozy.
Nessa conjuntura, a formação de uma “nova”direita ajustada as expectativas posteriores a Guerra Fria encontrou dois possíveis vertentes: por um lado a chegada pela revolução conservadora que os governos de Regam e Tacher impulsionaram nos anos 80 e, especialmente , os respaldos pelo neoconservadores ou neocons que nos anos 90 dominaram ambos períodos de George W. Bush. Por outro, a versão européia, crítica da hegemonia anglo-americana sustentada pela Nona Direita francesa.

Não obstante, a revolução conservadora ao cabo perdeu fôlego, depois de afundar os  Estados Unidos no maior déficit fiscal da história

A Revolução Conservadora.
Nos Estados Unidos, a revolução conservadora se empenhou em acabar com os frutos de meio século do New Deal de Franklin D. Roosvelt e os da grande sociedade de Lyndon B. Johnson, que constituíam o núcleo das heranças do movimento liberal estadunidense como, por exemplo, a política fiscal, dirigida a garantir a adequação da demanda social, o esforço por redistribuir o ingresso a favor dos cidadãos de menores ingressos mediante instrumentos, como a segurança social, e a crescente regulação pública de certos setores estratégicos como o complexo militar-industrial. Logo de que vários décadas os estadunidenses haviam percebido o Governo como um amigo

paternal, o mandato de Regan se iniciou com slogam de “o Governo é o problema, não a solução”e orientou a um brusco recorte as faculdades e serviços do setor público.

Essa ofensiva conservadora buscou eliminar as políticas de acordo social instauradas desde a pós-guerra, consolidadas com a ampliação das liberdades públicas, os direitos sociais, a orientação Keyneiana da economia e o Estado de Bem Estar, que já eram parte do patrimônio sociocultural da população. Dessa forma, se limitou a participação do Estado na economia através da desregulamento e as privatizações, se reduziram os impostos a minoria mais endinheirada e se incrementaram os gastos militares.
Por sua vez, como expressão de uma política muito ideologizada, se marginou os sindicatos e demais organizações sociais da toma de decisões e se insistiu em que suas demandas eram incompatíveis com a racionalidade econômica e o interesse nacional. Quem não comungava com as teses neoliberais de desregulamento dos mercados, eliminação do setor público empresarial e equilíbrio orçamentário mais além dos ciclos econômicos, foram sistematicamente marginalizados dos meios acadêmicos, serviços de consultoria, organismos multilaterais e grandes meios de comunicação. No avanço dos anos 80, o predomínio dessas teses foi tão asfixiante que se impuseram como pensamento único.
    Não obstante, a revolução conservadora ao cabo perdeu fôlego, depois de afundar os  Estados Unidos no maior déficit fiscal da história, gerar um aumento exponencial da desigualdade e exclusão sociais, e provocar uma corrente de crises financeiras que tiveram crescentes efeitos internacionais a consequência da globalização. O desencanto social decidiu as seguintes eleições.
    Porém, o regresso ao Governo dos democratas estadunidense e os trabalhadores  britânicos deixou a vista que a revolução conservadora já havia arraigado em cultura política de ambos países. Os governos de Tony Blair e Bill Clinton respeitaram as teses básicas do conservadorismo, conformando-se com implantar o que Joaquim Estefanía denominou “um tatcherismo e um reaganismo de rosto humano”.

Os neocons  
Enquanto governou o Partido Democrata, os técnicos norte-americanos da revolução conservadora permaneceram protegidos  em uma ampla diversidade de fundações e think tanks ( penso obrigado) financiados por poderosas transnacionais. E durante esse lapso elaboraram o chamado Projeto para um novo século americano, sua proposta doutrinária para o lançamento de uma grande ofensiva neoconservadora para o século XXI de onde os vem o apelido de neocons.
    Personagens como Cheney, Wolfowitz, Perle, Rumsfeld, Rice, Ashcroft, Kristoll e Kagan, entre outros, como continuadores reciclados do conservadorismo dos anos 80, adotaram a George W. Bush  como candidato, fusionaram ao “partido das

NeoCons
idéias” com o “partido dos negócios” e contribuíram denodadamente a derrotar a candidatura  democrata de Al Gore. Entenderam sua missão como uma cruzada destinada a implantar uma época conservadora no plano cultural e moral, a erradicar concepção laica da vida desde a obrigatoriedade do rezo nas escolas pública até a proscrição da teoria de Darwin, a combater ao igualitarismo, a ecologia, o feminismo e a tolerância sexual, assim como a entronizar a preeminência da segurança sobre as liberdades cívicas.

    Para impor essa nova época, os neocons se figuram tal cruzada como uma contra-revolução  permanente com objetivos de meio e longo prazos para maximizar suas realizações e consolidar sua perduração.
    Observações suas são fazer-lhe frente ao enfraquecimento da hegemonia estadunidense e a decadência de sua concepção da democracia ocidental, para “restaurar” um corpo social devidamente ordenado, disciplinado  e hierarquizado. De aí sua pressa por converter a concepção de incerteza provocada pela globalização e pela crise em um temor social pela segurança, em transformar as controvérsias políticas e socioeconômicas em conflitos étnico-culturais e religiosos, em criar e apontar “inimigos” e ameaças que justificam generalizar medidas de exceção, e desqualificar a todo crítico e alternativa política.
Seu objetivo é varrer as limitações deixadas pelas passadas reformas liberais e movimentos cívicos. Manifestações suas são tanto as políticas diretamente dirigidas a beneficiar as grandes corporações como a defensa do fundamentalismo cristão, assim como entronizar a nação norte-americana de civilização e democracia acidentais por qualquer meio, inclusive o militar.
     O apogeu de sua influência se desatou com o máximo aproveitamento da oportunidade que lhes foi deparada pelos brutais atentados  do 11 de Setembro, ocasião que lhes permitiu ampliar sua incidência sobre os maiores meios de comunicação, acoitar e retroceder liberdades públicas e direitos cidadãs, assim como desatar as guerras mais empresariais que punitivas e culturais de Iraque e de Afeganistão

A “nova” direita espanhola.
    Por sua parte, a “a nova” direita espanhola, em tanto que movimento, é  uma mistura de inovação e conservadorismo, e de agressividade rupiturista com apelação aos valores da época  franquista. Sua agressividade oprime as posições da direita centrista e demo cristão   aparecidas durante a transição pós franquista, que respeitaram a institucionalidade democrática. Em contraste, esta direita não somente chama a quebrar as restrições que a democratização impus a classe dominante, senão a plasmar a “imagem invertida da revolução permanente”, dando-se o papel de “força ordenadora de um mundo instável e ameaçado, submetido a terrorismo de enorme ubiquidade e forças morais perversas”.
Como cabeça, pois, de uma contra-revolução permanente destinada a restaurar a ordem que a transição democrática e a renovação capitalista “corromperam”nos últimos lustros, esta “nova” direita demanda ações tão extremas  como a guerra. Porém já não contra o terrorismo, a delinquência e as drogas, e sim contra qualquer elemento suscetível de se converter em “inimigo interno”.
    Assim mesmo, reclama instaurar a “autodefesa preventiva”, que implica  não somente fazer um lado de ordem jurídico que ampara os direitos cidadãos, e sim entronizar as políticas de exceção e os métodos policiais como pauta de governo sem esperar a que o suposto inimigo cometa os atos que se lhe pressupõem.
    Tais argumentos, mais que representar um corpo intelectual a usança da Nova Direita francesa, exibem um discurso que reacomoda reminiscências da ideologia franquista com exposições do reaganismo norte-americano dos anos 80. Porém coincidem em idêntico afã por desterrar os valores da Revolução Francesa, o liberalismo e as conquistas das revoluções européias de 1968, ao que se agregam as obsessões  reaganistas contra a equidade social e étnico cultural , o sindicalismo, o feminismo,a tolerância sexual, a ecologia e demais conquistas da democracia avançada, e contra  os povos e pessoas de fé islâmica.
    Por outra parte, frente aos sintomas de esquecimento e perda de eficácia  o sistema político estabelecido, de seus partidos e suas instituições parlamentarias, assim como ante a insensibilidade  dos meios de comunicação  frente as novas  necessidades e demandas sociais, esta direita procura apresentar-se  a si mesma como uma opção anti-política critica do sistema estabelecido e como a opção extrasistémica capaz de mudar-lo. Por conseguinte,pretende ser a nova porta voz e alternativa do esquecido homem comum, de seus medos e sonhos perante  um sistema  político insensível  e esgotado.

Quem domina os meios está em vantagem para impor a agenda temática ao redor da qual se enfoca o interesse e o conseguinte debate da maior parte da sociedade...

 Deste modo assume um acentuado perfil populista, que constitui uma se suas características mais notórias. Perfil a sua vez reforçado pela sagacidade da “nova” direita para assumir aos meios e as técnicas de comunicação e publicidades massivas como o instrumento político capaz de servir-lhe como alternativa perante a decadência dos instrumentos  tradicionais de organização e ação político eleitorais. E ademais de traduzir-lo em uma resolvida disposição para explorar o campo mediático ao melhor estilo norte-americano.
    Na América Latina, a “nova” direita se apóia na medula, neste recurso, ao que prioriza a qualquer custo, nutrindo com melhores conselheiros, tanto norte-americanas como de latino-americanos formados na escola estadunidense de estudo e manipulação da opinião pública.

Retóricas por realidades.
Hoje vivemos  e se compete politicamente em meio de demandas e tesões sociais mais complexas e dinâmicas que aquelas em as quais  se fundaram os atuais sistemas de representação  e gestão política. As normas e organizações sociopolíticas, tradicionais tem perdido confiança pública enquanto que os meios de comunicação mais poderosos superam a capacidade dos partidos tradicionais para contatar e orientar a uma massa plural de frações sociais que carecem de outras vias para perceber e interpretar a realidade. Nestas circunstâncias, o populismo de direita adota a industria da comunicação, como veiculo de performance que substituindo a velha propaganda entronizada uma retórica destinada a suplantar a realidade, ao mesmo tempo que aliena os meios mais penetrantes como instrumentos como instrumentos de poder político.
    As retóricas mediáticas se afloram como um substituto que acomoda e substitui a realidade efetiva para um público econômico, social, cultural e demograficamente segmentado, que tem limitadas  possibilidades de perceber e entender ao conjunto da situação, e de compartir suas interpretações.
    Quem domina os meios está em vantagem para impor a agenda temática ao redor da qual se enfoca o interesse e o conseguinte debate da maior parte da sociedade, assim como para qualificar a seus atores e argumentos. O predomínio mediático permite destruir ou construir reputações tanto de idéias e pessoas como de projetos e propostas, o mesmo que tergiversar umas opções ou relega lhas ao anonimato ou a marginalidade, e de ajudar a que outras possam prevalecer.
    Com esse respaldo, o populismo de direita pode converter essa nova forma de apresentar a opção reacionária em uma alternativa mais generalizada e “popular”que a esquerda; sobre todo quando esta ultima não há sabido renovar e promover suas propostas através de linguagens e métodos mais frescos, acessíveis e persuasivos.
    Como observa Emmanuel Rodríguez, em essa exploração do modelo que articula ditos moralismos, radicalidade, populismo e estratégicas mediáticas igualmente coincidem tanto os neocons norte-americanos como Silvio Berlusconi. Aparte de que ditos meios de comunicação “normalmente” são propriedade ou estão baixo controle de  interesses sociais, econômica e ideologicamente afins aos patrocinadores das campanhas neoconservadoras, finalmente constituem um conglomerado capaz de colocar a iniciativa neoconservadora por encima dos correspondentes partidos conservadores. Em não poucas oportunidades o “estado maior” do conglomerado mediático o “partido” mediático o fixa a agenda ao partido tradicional, invertendo os términos entre o manipulador informativo e a organização política que da a cara por ele.

 

Nils Castro

 
 
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