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Quem é a “nova” direita? (Parte II)

 Parecidos de família.
    Sendo assim, cabe reconhecer um conjunto de características que as diversas modalidades da “nova” direita compartem em um ou outro grau nos Estados Unidos e América Latina. Sem esgotar a lista, nem supor que todos estes rasgos invariavelmente devem aparecer em cada um dos casos sobressaem os seguintes:
1.    A pretensão e o discurso messiânicos, segundo os quais a perduração da ordem sociocultural e econômica “ocidental e cristão” ou alguma noção equivalente está ameaçado pelos excessos do legado liberal, a permissividade, a decadência do sistema político tradicional ou as idéias revolucionárias e socialistas, ameaças que fazem necessário  antecipar uma enérgica cruzada corretiva para restaurar  os valores  morais  tradicionais, reinstalar a ordem , a disciplina e as hierarquias sociais, restabelecer a  segurança pública e garantir  o bom governo e melhorar a rentabilidade do capital.

...a “nova” direita não exerce seu poder político para governar conforme ao interesse do conjunto da sua classe, e sim que conquista o poder público para coagir aos demais setores da burguesia e subordinar-los a seus interesses de grupo hegemônico...

    Essa intenção corretiva, e a demagogia que a proclama, idealizam, uma ordem política e moral historicamente já passada, e aspira por certo levar a sociedade nacional a esse estado anterior, o que identifica literalmente o propósito retrógado ou reacionário desse movimento, pese a novidade “revolucionária” de suas formas e métodos.
2.    A invasão do campo clássico da política por um conspícuo personagem de determinada fração ou grupo da elite empresarial e de seus operadores diretos. Isso se justifica com a presunção de que o estilo de decisão e mando característico da gestão empresarial é supostamente superior e que se pode transplantar sem mais a gestão pública. Esta invasão se justifica no suposto de que esse modo de dirigir fará menos deliberativa e mais eficaz a administração do Estado, como se os processos e confrontações sociais e as opções para dar-lhe solução política puderam-se decidir por decreto.
    Quando a liderança política, e no caso governamental, se exerce por interposta pessoa um dirigente que não é grande empresário este assim mesmo adota um maneirismo “executivo”, que também busca desqualificar ao político profissional como ineficaz e dispensável. Esse maneirismo retórico procura sugerir mais eficácia pragmática que valores sociopolíticos, com a intenção de mostrar esses “novos” líderes e candidatos como se fosse atores dotados de exitosa experiência empresarial ou similares, isto é, como a oportunidade que o burguês competente  oferece ao país para implantar um novo tipo de gestão  pública ou “outra forma de governar”, para dizer-lo  em palavras de Sebastião
Pinheira.

3.    Porém, o grupo econômico que protege a “nova” direita não exerce seu poder político para governar conforme ao interesse do conjunto da sua classe, e sim que conquista o poder público para coagir aos demais setores da burguesia e subordinar-los a seus interesses de grupo hegemônico, tal como o faz Ricardo Martinelli. E de idêntica forma, usa esse poder para castigar e submeter as organizações e personalidades representativas das demais classes ou grupos sociopolítico e neutralizar  todo foco de critica ou  resistência.
    O cumprimento destes propósitos não dribla apelar sistematicamente a práticas como a intimidação, as penalizações extrajudiciais e o suborno, que se aplicam de formas mais ou menos seletivas, discretas ou públicas segundo as conveniências  conjunturais do momento em que se executem.
4.    Se adota uma e atuação agressiva que introduzem no debate público determinado pacote de advertências morais e um estilo cesariana e messiânico, para instrumentar a exigência de aplicar ações extremas e medidas de exceção e adotar como forma de governo. Por exemplo, a reiterada apelação que George W. Bush fazia de citações bíblicas como argumento para impor políticas de exceção, com as quais seu governo cerceia importantes direitos dos cidadãos com alegando por fim o combater a espantalhos externos como o terrorismo internacional, e espantalhos internos como o narcotráfico, a imigração ou a pornografia.
     Em definitiva, o que se combate não é o mal que aponta, e sim o espectro construído por colação sua, com o qual o tema se aproveita para golpear a terceiros, incluso mais que os próprios causadores ou atores reais do mal que se diz quere atacar.
     Fica descartado, assim, o discurso presidencial clássico, moderado e paternalista, que desta forma se perde ante um estilo  rupiturista, cuja linguagem messiânica justifica destruir os consensos e acordos sociais, e driblar a legalidade, que antes deram base a direitos  cidadãos básicos em matéria de segurança social, pensões, educação, função representativa e negociadoras dos sindicatos e organizações sociais, desde tempos do New Deal e da segunda pós-guerra mundial.
5.    Para implementar esse cesariano, destaca o afã obsessivo e urgente por controlar e submeter outros órgãos do Estado e demais instâncias da gestão pública, e de impor uma rápida concentração do poder em mãos do Executivo.  Adota um estilo vertical de mando que reduz e estreita os âmbitos de consulta e deliberação, que margina as organizações da sociedade civil e rapidamente põem em crises a institucionalização  democrática, desconhece seus campos de autonomia e normas de funcionamento, anula a segurança jurídica e esvanece os limites entre o público e o privado.

   

     A “nova” direita ,como a extrema direita,não reconhece a legalidade como tal e sim como obstáculo por driblar ou remover.
    Parte substancial da urgência por controlar aos demais órgãos do Estado tem objetivo muito específicos: o poder Judicial e o Ministério Público para fazer vista grossa ou para interpretar as normas segundo o interesse político, econômico ou pessoal da nova autoridade, e para  ajuizar a representação aos críticos das ações governamentais. A do Poder Legislativo para modificar ou substituir as normas legais, e agregar as que venham ao caso para impor como regra as decisões da nova autoridade sem dar se ao incômodo de concordar-las.

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6.    Ao mesmo tempo, se entroniza uma forma populista de mandar que, com massivo respaldo mediático, se apropria dos temas, estilos e rostos de maior propaganda (rating) e se arroga a representação das massas dos cidadãos modestos e anônimos, fazendo promessas de ocasião para comprazer suas demandas e anseios, sem consideração pela viabilidade, a prioridade e a sustentabilidade de tais oferecimentos, nem de sua pertinência respeito a uma estratégia de desenvolvimento socioeconômico de médio e longo prazos.
     Como parte do charme populista buscado pela “nova”direita, faz uma prolixa  exibição de atitudes, modos de vestir,  procedimentos e praticas que a facção verse como “anti-política”, contrariando as formas habituais da política para pintar-se com os rasgos de um gênero atípico de liderança pressupostamente anti-sistêmico ou (outsider)  que suponha critico da ordem existente, enquanto que alheio e contraposto as opções oferecidas pelas instruções e dirigentes políticos já conhecidos, e ao tempo capaz de endereçar-las sem demora.
7.    Redigir os desgostos sociais sobre outros brancos, escolhidos ao efeito, o que inclui estender a permanentemente ofensiva mediática em torno a determinadas  idéias-força ( selecionadas conforme os  objetivos da “nova”direita, a conjuntura política por sortear e as características e vulnerabilidades dos adversários que se quer desqualificar). Por meio da ênfase reiterativa sobre esse núcleo temático seleciona-se e caracteriza o inimigo a vencer, já seja a esquerda, os corruptos, os negros, os judeus, os imigrantes, a delinqüência o terrorismo (ou alguma combinação de dois ou mais deles), para justificar medidas de exceção ou repressão que na prática afetaram a maioria das pessoas.
    Para isso, a “nova”direita ,escolhe, atiça e teledirige mal estares reais  existente na população e os aliena contra  os brancos que sua campanha seleciona ao efeito, para dirigir sobre eles o desgosto coletivo. Como, enquanto, constrói metodicamente a imagem de um liderança e um propósito desejável, tais como “a mudança”, a segurança nas ruas ou a prisão para anteriores dignitários. Quem domina os meios não necessita identificar a natureza da “mudança”, como tampouco provar a culpabilidade dos acusados, já que o linchamento mediático não requer.
8.    Com frequência, nesse contexto a democracia real é substituída por uma simulação plebiscitária que leva a votação cidadã determinados temas que real ou supostamente são de interesses públicos, “para que seja o povo quem decida”. Porém, se retêm a seleção e a formulação de tais temas cujo controle permanece nas mãos dos Executivo, a quem dedica ao processo uma massiva campanha publicitária que com recursos públicos, apóia as opções que lhe interessam.
    Este procedimento que foi um dos prediletos de Benito Mussolini facilita que o governo evite consultar e concordar com outros setores sociopolíticos as medidas que  adotar, afim de impor-las com o pretexto de que estas se assumam por decisões “do soberano”. O que permite ocultar os planos efetivos que o governo guarda para médio e longo prazo, que somente  se revelam a medida em que o regime convoca a novos  plebiscitos.
9.    Com frequência, a todo o anterior se agrega um persistente afã por anunciar e inaugurar obras ou ações monumentais, não necessariamente imprescindíveis porém  sempre de grande impacto  cênico e custo muito elevado.

   

     Estas no mínimo poderão ser grandes edifícios ou remodelações urbanas, ou também enormes mobilizações militares de tamanho extracontinental, como das invasões a Iraque.
    O clima e a ocasião oportuna.
Qual é o transtorno motivador da “nova” direita na Américas de nossos dias? A universalização da crise que emergiu em 2008 que não somente é mundial e sim que tem grande presença em múltiplas instâncias da realidade, a que exacerba as incertezas e frustrações próprias da declinação do capitalismo, pelo menos a do capitalismo que conhecemos.
    Acrescentando-se a falta ou insuficiência de projetos alternativos, a crise acelera os sentimentos  generalizados de insegurança, não apenas  por carência de proteção policial suficiente,e sim por precariedade do trabalho, da moradia, do status social, assim como a perdida de previsibilidade e de confiança nas expectativas. Na Europa e Estados Unidos, tensa a relação com pessoas e coletividades de outras etnias e culturas.
    Em um ambiente de flutuações econômicas, políticas e culturais imprevisíveis, uma plebe extraviada, agora ferida e furiosa pelos efeitos da recessão, se move a deriva por todo o espectro político, de forma que um dia elege a Obama e outro o repudia. Por isso, ao explicar a derrota sofrida em Massachusetts em fevereiro de 2010, o próprio Barack Obama assinalou: “A mesma coisa que propus a Scott Brown ao cargo,  propus a mim a presidência. As pessoas estão enfadadas , e estão frustradas”.
    Circunstância que, precisamente, depara o ambiente psicológico pro clive ao discurso messiânico da “nova” direita demagogicamente prometedor de correções, “mudanças” e certezas eficazes a curto prazo com lideres de fibra que devem saber o que fazem e ter a coragem ou a falta de inibições necessárias para fazer-lo. É igualmente, com adversários convenientemente escolhidos e fáceis de vencer. Para assegurar um rápido regresso a situação e as regras antigas, já sabidas, onde  superar tais incertezas com as vantagens de quem retorna ao passado com todos os saberes do futuro.
    Porém, mais concretamente, o autentico motor do assunto está no objetivo de garantir a segurança e a maior rentabilidade do capital, ameaçando não somente pela crise econômica e sim pela eventualidade política de que a inconformidade social se traduz em transbordes e rebeliões, já seja como caos ou a revolução. Isto é, para proteger o capital adiantando-se a restabelecer as condições de ordem, disciplina e hierarquização sociais requeridas não somente para salvaguardar ao regime preexistente e sim para tirar do caminho restrições e a cultura igualitária que no ultimo século lhe tem consumido taxas de ganâncias: das proteções e solidariedade sindicais, redistribuições do ingresso, segurança laboral, prestações sociais, de direito a informar, organizar e revelar-se, etc.

Casabranca

    Na intimidade se trata, por conseguinte, de um programa neofacista, ainda que evita confessar-lo. A “nova”direita, não é conservadora e sim extrema direita, tanto por sua plataforma econômica como por sua fundamentação ideológica e política. Ainda que se refira a um fascismo civil envolto em peças mais coloridas.
    Para cumprir esse programa se requer uma notável concentração de poder; para conseguir, todo evento é aproveitável. No caso norte-americano, antes recordamos como o 11 de setembro de 2001 a falange de neocons que rodeava a George W. Bush se apressou em tirar partido a esses brutais atentados para promover a campanha que justificaria recortar direitos civis e invadir o Iraque, manipulando o desalento cidadão, não sabendo que o regime  de Hussein não era  parte do assunto.

Na América Latina, Sebastião Pinheira revelou esse oportunismo com um singular aproveitamento do terremoto de 2010. Ao anunciar que essa tragédia implicava reformar seu programa de governo, antes de recorrer a prioridade de atender as vitimas e reconstruir as infra-estruturas destruídas, destacou os saqueios suscitados em concepção para afirmar  que “se está perdendo  o sentido da ordem  pública” e que “as pessoas necessitam tranquilidade  e ordem pública”, assim o programa recorrerá a todos os meios  que os  garantam, algo par  o qual “nossas  Forças  Armadas  estão preparadas”.
    A capacidade de reprimir precede a obrigação de abastecer. Assim, ainda que  depois soubesse matizar  o dito, a noz do assunto  ficou devidamente  esclarecida.

    A perspectiva da direita norte-americana.
    As limitações do presidente Obama para atuar na altura de suas promessas, e sua antecipada volta a varias  políticas  do governo anterior, não seriam  óbice para que, sem maior espera, a direita norte-americana pudesse sair  a cobrar-lhe  o maior  preço eleitoral que  lhe havia  infligido. Organizando-se para tomar a ofensiva  nas  eleições parlamentares de meio período, fevereiro de 2010 se celebram, por separado, distintos  conclaves del Tea Party Moviment( a festa do cha ) a rama mais tosca e popular do fundamentalismo conservador e do chamado Conservadorismo Constitucional a direita elegante.
    As duas ramas coincidiram em suas respectivas linguagens, na realidade de desenvolver “a mais implacável campanha de descrédito e desgaste contra um governo eleito de que se tenha memória na política norte-americana”, governo que desde os primeiros dias acusaram  de “socialista”. Ditos conclaves fizeram ver que os neoconservadores não se conformavam em recuperar  o controle de congresso e em seguida o da casa Branca o da corte Suprema que já  mantiveram, e sim que dirigir e eliminar  definitivamente  os contrapesos institucionais e legais que antes lhe estava fechado  a mudança para o neo fascismo nesse país;  é dizer, a mudar todo  o sistema.
Baixo a reitoria do presidente da Fundação Heritage, o conservadorismo Constitucional proclamou a Declaração de Mount Vernon, que recuperou o essencial  do projeto para um novo século americano, de finais  dos anos 90, que os neoconservadores escreveram logo depois do revés sofrido  ante Bill Clinton.
Dita Declaração volta ao clássico recurso de inovar, a sua maneira, os princípios da Declaração de Independência e da constituição, e de usar-los para alegar que nas ultimas décadas estes foram minados e redefinidos por reiterados extravios radicais e multiculturais da política, as universidades e a cultura norte-americana. Isto por sim manifesta um claro repudio das conquistas cívicas obtidas nos anos 60 e 70 do século passado, e não somente as iniciativas que eventualmente a administração Obama possa agregar.
    Em consequencia, alega que surge uma “mudança” que volte a por o país no caminho de tais  princípios. E para isso apregoa um conservadorismo constitucional consagrado a sustentar um governo de salvação nacional “que garanta estabilidade interna e nossa liderança global”. Entre esses princípios destacam, desde logo, não somente os da liberdade e as iniciativas individuais, e sim os de livre empresa e reformas econômicas baseadas em relações de mercado, alem da tradicional defesa da família, a comunidade e a fé religiosa.
    Estamos, pois, diante de um novo chamado contra-reforma, contra-revolução preventiva não somente a escala norte-americana e sim com projeção global, tanto por argumentação em que se apóia e o destino que este movimento se arroga, como pela natureza da potência em cujo nome se proclama essa intenção.

    América Latina em disputa.
     Em grande parte da América Latina as agrupação mantém a iniciativa política, porém já está em curso uma importante contra-ofensiva da”nova” direita. Encontramos-nos ante um largo mosaico social que está em disputa e como corresponde a tempos de transição onde há diversas opções abertas. Por um lado, essa “nova” direita tende a prevalecer sobre as formações conservadoras tradicionais, porém sem marginalizar-las. Pelo outro, o panorama das esquerdas é mais heterogêneo, como é próprio a sua natureza questionadora e criativa, que explora a diversidade de caminhos.
    Na nossa  América as incertezas e precariedades, agravadas pelas políticas neoliberais  e seu fracasso, concorrem com o anterior abandono dos referentes projetos desenvolvimentistas e revolucionários das anos 60 e 70,  e com a insuficiência de outras  propostas mais eficazes para os tempos que correm. A crise social está mais avançada que o desenvolvimento de novas alternativas político-ideológicas.
    Após tantos anos de insatisfação as pessoas estão fartas, sem que isso signifique que já  é consciente  de suas possíveis alternativas  históricas. Assim as coisas, esse difuso e multiforme social está contribuindo para fortalecer o apoio eleitoral a opções de esquerda, porém  não necessariamente a aceitar alternativas mais radicais. A dor e a irritação pelas consequencias da desigualdade extrema, o emprego precário e a miséria convivem com descrédito dos sistemas políticos conhecidos e, ao mesmo tempo com uma estendida sensação de temor que vem da falta de seguranças e a frustração de expectativas.
    Nesse contexto o que agora toca é medir forças com uma direita renovada e melhor articulada que vem a disputar o campo político. E que vem fazer-lo com os recursos que já sabemos: o predomínio mediático, uma orquestração continental e uma consigna populista que tem a força de uma brutal simplificação dos problemas e expectativas populares, que não necessita maiores esforços explicativos. A natureza elementar e retrógrada dessas consigna facilita sua assimilação.
    Em períodos assim o piso político é móvel: abundam os reatamentos táticos, programáticos e ideológicos das diretrizes dos partidos políticos e organizações, como também dos setores sociais  que eles pretendem representar. Isto é um espaço propicio para qualquer gênero de aventureiros, como Fujimori. Porém se bem é certo que a crise econômica, sociopolítica e ideológico-cultural propicia confusões e recomposições não por isso leva ao suposto “retorno da direita” que hoje predizem determinados “analistas”. Ao contrário, em nenhum país latino-americano existe um movimento de massas em apoio de projetos contra revolucionários.
    Ainda que aqui ou acolá a esquerda política não tenha renovado suas propostas, a vida arraiga a uma esquerda social que se estende ainda não esteja conceitual nem organizadamente desenvolvida.  Se em vez de perguntar pelas siglas partidárias se questionam os problemas diários tema por tema, se comprova que o falso que nossos povos derivem para a direita, pese “a rememoração histórica de confusão, ideologização e desorganização” que os deixam inertes por obra do oportunismo de algumas lideranças inescrupulosa.  Por isso as campanhas da “nova” direita se vem tão necessitadas de remendar discursos progressistas.

    ...Ainda que a tradição das esquerdas, o internacionalismo e a solidariedade ocupem um lugar relevante na atualidade, a maior parte de suas organizações latino-americanas consome seus escassos recursos nas tarefas nacionais...

O que aconteceu no Chile nas eleições de 2009 não prova outra coisa. O conserto pela Democracia, que o governou esse país por 20 anos, não foi um exemplo da reativação que as esquerdas latino-americanas experimentaram desde finais dos anos 90 em repudio as teses e resultados do neoliberalismo. O conserto foi produto da etapa prévia, de transição acordada da ditadura a democracia neoliberal (que teve lugar paralelamente a conciliação da socialdemocracia européia com o neoliberalismo). A subsistência do modelo pinocherista de constituição, institucionalidade pública, sistema eleitoral e economia de mercado assim o recorda, enquanto que é marca de uma transição democrática que ficou inconclusa.

    O feito de que esta subsistência se instrumentará com participação de uma parte da esquerda deve avaliar-se vis a vis com as importantes conquistas em matéria  de liberdades públicas  e direitos  humanos  que isso  inicialmente  facilitou, em sua primeira etapa. Mais não será assim paradoxal, baixo um governo da “nova” direita quando o povo chileno terá oportunidade de lutar para que a transição democrática se complete e por incorporar-se ao processo de renovação do papel e a natureza  das esquerdas  latino-americanas.
    Uma ofensiva articulada.
    Ainda que a tradição das esquerdas, o internacionalismo e a solidariedade ocupem um lugar relevante na atualidade, a maior parte de suas organizações latino-americanas consome seus escassos recursos nas tarefas nacionais. Nos últimos anos, após a ofensiva neoconservadora dos anos 90, a demais não costuma transcender o plano declarativo. Os foros internacionais são mais ocasiões de breves exercícios de reflexão, que oportunidades para concertar cooperações de maior prazo e alcances.
     É na direita onde acontece o contrário. Hoje o mantimento de cenários e atividades de instrução e colaboração política internacional é muito mais constante e ativo para suas organizações. Para isso existe um pólo articulador: Na América Latina todos os partidos reacionários de alguma importância têm vinculações com o partido Republicano e com fundações e universidades conservadoras dos Estados Unidos, o mesmo que com o Partido Popular espanhol e fundações próximas ao mesmo.
    Os quadros jovens dos partidos de direita  frequentam  cursos proporcionados por fundações e universidades conservadoras, particularmente na área relacionada com o marketing político, com ênfases na investigação e manejo da opinião pública, e as técnicas para dirigir as comunicações sociais.
    Miami já é um grande conglomerado de instituição e cursos de formações nessas especialidades para os novos quadros latino-americanos de direita.
    Aparte de que, por suposto, essas jovens promessas político-empresariais vão as mesmas universidades norte-americanas. Uma notável proporção dos dirigentes político-empresariais latino-americanos são ex-condiscípulos de cursos pós-grados nessas universidades.
    Proliferam assim mesmo os eventos breves e conferências de capacitação político-ideológica que propiciam encontros das jovens promessas da direita com seus veteranos referentes europeus, latino-americanos e estadunidenses. José Maria Aznar, por exemplo, sem ser um intelectual de médio brilho, se passa voando, no literal sentido da palavra.
    Por sua parte, os maiores não só assistem as mesmas conferências em Estados unidos, ou as dadas por gurus norte-americanos em cidades latino-americanas e sim que, de maneira  mais especifica, se encontram nas juntas  diretivas e as reuniões de acionistas das mesmas empresas. As que, alem do mais, cada dia operam em maior quantidade de países da região e funcionam seus respectivos interesses.
    Não é de estranhar, em consequencia, que uns e outros pensem a nossa América com os mesmo parâmetros, cultivem projetos políticos similares, e se ponham de acordo nos mesmos términos, para organizar suas atividades políticas solidariamente.
    A parte da enorme diferença que existe na disponibilidade de recursos econômicos, se pode dizer que há para a direita continental, há vantagem neste campo para as esquerdas também porque está em melhores condições intelectuais para aproveitar a seu favor as vantagens da globalização que, de passo em ausência de competidores de esquerda, é sua globalização.
    Porém mais alem disso, a pedra de toque do assunto está em que o núcleo político-ideológico da direita norte-americana segue ativo e não lhes faltam organização, poder, recursos nem iniciativa, não somente para atar-lhe as mãos ao Presidente Obama, e sim para orquestrar esta nova contra-ofensiva das direitas latino-americanas.
    Globalização, recursos e orquestração que, no entanto, não constituem um obstáculo e que as esquerdas devam resignar-se, e sim um desafio que agora lhes toca superar com os recursos de sua criatividade e imaginação. No atual mundo das comunicações virtuais, quando os povos da região têm boas razões para deslocar-se a esquerda, esse tampouco será um desafio demasiado difícil de remontar, uma vez que somos conscientes da sua transcendência.

Contra-hegemonia.
Em tempos da Guerra Fria, para que a direita oligárquica pudesse impor “mudanças” dirigidas a refazer o sistema e derrogar as conquistas sociais, democráticas e progressivas já institucionalizadas, foi necessário infligir derrotas esmagadoras e duradoras a resistência popular, instaurando as ditaduras de segurança nacional e o terrorismo de Estado. Porém de lá pra cá, as circunstâncias regionais e mundiais, assim como o desenvolvimento político alcançado por parte significativa de nossos povos,hoje, esse caminho e seus eventuais alcances resultam mais difíceis, como em 2009 reiterou no caso de Honduras.
    Para derrogar essas conquistas sociais agora a direita tem que apelar a outros meios. E o pode fazer em medida a reação aproveitando para isto os recursos que lhe dão vantagem que logre explorar em seu beneficio os mal estares e confusões sociais já existentes, e organizar agrupações de milhares “de seres humanos jogados na marginalidade, a ignorância e a desesperança, para intentar fazer deles uma força de choque selvagem” contra os setores cidadãos mais conscientes. Não somente no plano eleitoral. Essa convocatória a coação e a violência é, precisamente, uma pequena amostra da ditadura fascista, arquétipo da estratégia de contra-revolução preventiva.
    Captar esses mal-estares e desviar-los contra um branco selecionado ao efeito permite distrair massas populares, e instrumentar-las ao serviço de fins contrários ao interesse popular de longo prazo. Para isso tem uma demagogia consubstancial ao gênero de liderança vertical e mediático que a “nova direita pode oferecer.
    Como bem escreveu Gramsci em seus longos anos de prisioneiro político do fascismo, demagogia significa “servir-se de massas populares, de suas paixões sabiamente excitadas e nutridas, para os próprios fins particulares” e as ambições de um chefe. Ao que ele em seguida acrescentou que o demagogo se apresenta a si mesmo como insubstituível, elimina a seus possíveis competidores e apela a “entrar em relação com as massas diretamente (plebiscito, tec., grande oratória, golpes de cena, aparato coreográfico fantasmagórico)”.
    A magnitude das ameaças que essa “nova” direita representa hoje ressalta o valor que para as esquerdas sempre hão tido e a urgência que agora demanda a tarefa de formar consciência e organização popular e classista. Se as armas dessa direita prosperarem, precisamente ao incidir sobre uma massa ignorante, afligida e desarticulada, superar essa debilidade popular é nossa prioridade. O campo popular e latino-americano é nosso campo e nele nos compete derrotar este invasor.
    Frente à ofensiva que a reação arroja sobre essa massa para impregnar-la com uma subcultura da direita, é prioritário construir e mobilizar em seu seio uma contracultura fundada nas necessidades, reivindicações e expectativas populares.   É com base nessa contracultura que se pode reivindicar a independência do pensamento popular e relançar sua solidariedade de classe. Uma contracultura capaz de crescer como o cimento aglutinador e orientador de organizações onde a solidariedade de classe volte a primar sobre a atomização das salvações individuais místicos religiosas, delinquenciais ou neofascistas que o neoliberalismo antes propiciou.
    Somente a organização popular e plural tanto de bairro e comunitária como laboral, união cívica e política pode converter as idéias e aspirações dessa contracultura em uma força material, isto é, em uma força capaz de buscar e acumular seu próprio poder. Por conseguinte, em uma contra-hegemonia, uma opção de poder para opor-lhe os recursos e os fins a todas as direitas e do capital que as amamenta, como força social e política que se pode conter-los e derrotar-los.
    O que em igual medida prioriza o imperativo de articular frentes amplas onde articula a diversidade das esquerdas sociais e políticas, e fechar os vazios onde abundam os aventureiros de todo tipo, com base no que em cada caso elas tem de comum, enquanto que respeitando suas respectivas personalidades e diferenças.

Nils Castro

Escritor e catedrático panamenho.

 
 
 
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