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ESQUECER OU LEMBRAR DO SIGNIFICADO DO 1.º DE MAIO PARA A CLASSE TRABALHADORA?

 

Por Roberto Mansilla

(Mestre em História pela UFF. Professor de História da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro e militante do Fórum de Educadores Populares).

Hebe Bonafini

Respondendo a VERGONHA em que foi transformado os vários Primeiros de Maio organizados pela (não menos vergonhosa) Central Única dos Trabalhadores por este país, sobretudo o ocorrido em São Paulo, na qual o governo Lula investiu mais de 1,5 milhão dos cofres públicos para ser seu palanque eleitoral recorro a um tempo em que a classe trabalhadora e suas organizações tinham um outro entendimento do significado do 1.º de Maio: protesto e mobilização consciente e não festa e sorteios de prêmios!
Inicialmente, recordo o artigo de Eurípides Floreal, publicado em “A Voz do Trabalhador”, órgão da Confederação Operária Brasileira, em 01 de maio de 1909, sobre a maneira de encarar o significado do Primeiro de Maio.

“Como deve ser compreendido o Primeiro de Maio por todos aqueles que trabalham, por todos que através dos tempos tem passado uma vida infame de miséria? (...) Esse dia deve ser de revolta e não de festas; digo de revolta porque creio ser necessário revoltarem todos os seres que mourejam diariamente dentro das fábricas, nas minas e nos campos, contra essa sociedade nefasta, que procura artimanhosamente escravizar-nos, negando-os o direito que nos assiste de gozar de todas as riquezas que a natureza possui, e as quais nos pertencem! Digo que não deve ser de festa porque festejar o trabalho na atual sociedade, seria o mesmo que festejar a nossa escravidão, a miséria que nos avassala, equivaleria a dizer que estamos contentes com esta corrente tirânica que nos oprime e satisfeitos com o jugo aniquilador que nos faz curvar sob o seu peso. (...)”

Recuperado o significado do dia 1.º de maio para memória da classe trabalhadora, vale a pena, a seguir, ler a confissão de August Spies que foi um dos cinco operários condenados à morte depois de um julgamento tendencioso que criminalizou a luta de centenas de operários que, em 1.º de maio de 1886, em Chicago (EUA) ousaram realizar uma manifestação com as palavras de ordem: “8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de educação”. Disse Spies, antes de sua morte:

“Com nosso enforcamento, vocês apagam uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescem e vocês não poderão apagá-las”.

Enquanto isso a burguesia norte-americana vociferava: “A prisão e os trabalhos forçados são a única solução adequada para a questão social. (...) Estes brutos (os operários) só compreendem a força, uma força que possam recordar durante várias gerações”. [Chicago Times]
Em 14 de julho de 1889, o Congresso Internacional dos Partidos Socialistas, realizado em Paris, proclama, o “Primeiro de Maio como data internacional de luta dos trabalhadores”. Reparem, LUTA e não FESTA!

Por fim como deixar de registrar a poesia revolucionária e engajada de Vladimir Maiakovki que de forma clara declamava:

“MEU MAIO

A todos
que saíram às ruas,
de corpo-máquina cansado,
a todos
que imploram feriado
às costas que a terra extenua
Primeiro de Maio!
O primeiro dos maiôs:
saudai-vos enquanto
harmonizamos voz em canto.
Sou operário
Este é meu maio!
Sou camponês
Este é meu mês.
Sou ferro
Eis o maio que quero!
Sou terra
O maio é minha era!”

A esquerda (ou aqueles que se autoproclamam “esquerda”) tem obrigatoriamente que ser coerente com essa tradição libertária (esse epíteto não se reduz ao anarquismo), combativa e autônoma do movimento operário e de suas organizações políticas. É vergonhoso, contraditório e mentiroso para essa identidade da classe trabalhadora que falamos, tornar o Primeiro de Maio um dia de festa, feriado, desmobilização e palanque eleitoral com fez o PT e seus aliados (da “esquerda” e de uma direita “disfarçada de social”. Afinal qual a trajetória da Força Sindical?].
Vale a pena lembrar que o PT é um partido surgido como parte da retomada das lutas e mobilizações sociais do Brasil, no final dos anos 1970, mas que nas últimas décadas e, particularmente nos últimos anos, escolheu se associar ao capitalismo, explorando e retirando direitos da classe trabalhadora, acobertando os torturadores da Ditadura de 1964 e administrando a crise do capitalismo.
O PT e Lula esqueceram (?) da advertência de 1909 feita pelo operário brasileiro Eurípides Floreal em não transformar o Primeiro de Maio em festa, mas em luta; desconsiderou o discurso do operário norte-americano August Spies, proferido antes de sua morte em 1890, transformado depois em marco internacional do Primeiro de Maio. E finalmente, apagou da memória operária a poesia do poeta russo Maiakoviski.
Enfim jogou na lata do lixo a tradição de luta e combatividade dos trabalhadores e sua determinação enquanto classe em si em prol de sua libertação do jugo do capital e de seu aparato estatal coercitivo e da construção de um autogoverno dos trabalhadores e trabalhadoras.

 

Artigo desenvolvido e concluído em 01 de maio de 2010.

 
 
 
 
 
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