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A ARTICULAÇÃO POLÍTICA CIVIL E MILITAR PRÉ – GOLPE DE 1964
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O papel da intelectualidade de direita na elaboração da tática e estratégia de ação para a tomada do poder.
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Em artigo anteriormente publicado aqui no “Uní – vos” abordamos o período do pós – guerra (II Guerra Mundial), a conjuntura internacional e a inserção do Brasil na estratégia imperialista de incluir nosso país em sua área de influência que ganhou força na fase do segundo período da chamada Era Vargas. Neste artigo vimos como as forças golpistas de direita deram seus primeiros passos no sentido de estabelecer um governo pró – imperialista. Vide link “Uma aliança reacionária ou Mudar para tudo continuar do mesmo jeito”. |
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Passemos, então, a analisar com mais profundidade de onde partiram estes planos golpistas e quais os principais centros gestadores de todo o processo que viria a redundar no golpe de 1964. São os “think tanks” da direita, para usar uma expressão consagrada quando se refere a uma instituição ou órgão encarregado de pensar/analisar/elaborar e estabelecer táticas e estratégias de ação com relação a um determinado ponto; no caso, como se analisar os fatores estruturais/conjunturais e passar à ação golpista |
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Relembremos o fato da renúncia de Jânio Quadros – agosto de 1961- quando os setores pró – imperialistas não quiseram permitir a posse de seu vice, João Goulart que se encontrava em viagem à China e, na sua volta, teve de governar com um Congresso hostil que lhe impôs um regime parlamentar que restringia seus poderes presidenciais. Havia um cabo – de – guerra de forças político – militares capitaneadas pela Escola Superior de Guerra que refletia os interesses multinacionais e dos grupos a estes associados contra setores da média burguesia, da burguesia agrária sulista e militares nacionalistas como o Marechal Lott (candidato derrotado à presidência enquanto seu vice, Jango, foi eleito junto com Jânio Quadros). Estes conseguiram impedir o sucesso do golpe em João Goulart e garantiram sua posse. Foi nesta “queda de braço” que foi feito o acordo entre os grupos em disputa. Jango assumiria, porém, de maneira limitada. O período de 1961 – 62 foi de disputa contínua entre os que queriam a continuidade do parlamentarismo limitador da força presidencial e as classes sociais envolvidas no apoio ao presidente. Exerceram papel de destaque, entre outros, os trabalhadores organizados em sindicatos, os estudantes de esquerda, as organizações camponesas. No plebiscito nacional de 1962, parlamentarismo X presidencialismo, venceu o presidencialismo. Assim, Jango conseguiu manter – se no governo dentro de um projeto político nacionalista – reformista coerente com a s demandas dos segmentos populares que lhe apoiavam a partir do ano de 1963. |
Os adeptos do reacionário projeto modernizador – conservador e pró – imperialista passaram, então, a rearticular – se e se debruçaram, então, nos estudos voltados à tomada do poder, projeto embalado há mais de uma década e, sempre, frustrados pelas idas e vindas das movimentações conjunturais que dependiam do resultado das eleições, para os pró – imperialistas, não asseguravam o que viria após, se um governo aos seus moldes ou mais um populista conciliador de interesses conflitivos. Donde, sua aversão aos “políticos profissionais”, muitas vezes, tinham de recorrer a estes políticos em busca de alianças onde necessitavam compartilhar os projetos demagógicos de uma classe política conservadora mas que não contava com a confiança de militares, tecnocratas e grupos empresariais ávidos por abrir uma “linha direta” com a administração federal e, assim, exercerem seu poder de classe. Para estes, o processo eleitoral havia se mostrado um estorvo, um fardo que precisaria ser removido nem que, para tal, tivessem de romper com a chamada “democracia representativa” burguesa. |

Jânio Quadros |
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* Não se pode perder de vista que tal contradição traduzia os mesmos conflitos na esfera de poder na matriz do império: os Estados Unidos. Lá, a disputa se dava entre os “falcões” (linha dura) X “pombas” (a linha mais moderada). A discórdia se dava entre qual a melhor forma de governo mais adequada à exploração dos povos subalternos aos seus planos da “Grande América” (consubstanciado na Doutrina Monroe). Era a Guerra Fria entre os EUA e a, então, URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviética) e a China Popular. O governo norte – americano havia saído de um conflito onde teve de assinar um acordo tendo de reconhecer a divisão da Coréia em Coréia do Norte (socialista) e Coréia do Sul (capitalista pró – EUA). Já na passagem de 1959/60, a experiência de uma revolução socialista de um povo tão parecido com o brasileiro: A REVOLUÇÃO CUBANA. A declaração de que a Revolução em Cuba seria Socialista atraiu (e atrai até hoje) o ódio dos americanos que conta com o apoio incondicional de uma mídia subproduto da ditadura que permanece direcionando os “imparciais” jornalistas e articulistas tão preocupados em agradar seus patrões. Estão aí, os Arnaldo Jabor, os Nelson Motta, as Mirian Leitão... A luta entre o socialismo e o capitalismo monopolista continua. Agora, com a adesão dos “cristãos novos” convertidos pelo dinheiro e adoradores do “deus mercado” especulador. |
ORIGENS DO PROJETO MODERNIZANTE – CONSERVADOR |
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Vale a pena refrescar a memória e trazer à baila a sigla ESG, de Escola Superior de Guerra, aparato político – militar que melhor transladou os acordos estratégicos de treinamento patrocinados pelos Estados Unidos no cenário da Guerra Fria. A ESG foi, oficialmente, criada em 1949 nos moldes da Escola Nacional de Guerra dos EUA (National War College) e com a participação de militares daquele país. Os oficiais dos EUA sempre estiveram presentes naquela escola do bairro da Urca no Rio de Janeiro. Foi na ESG que a relação EUA – Brasil estabelecida pelos militares de um país e do outro na Campanha da Itália (2ª Guerra) melhor se refletiu. Nela, as conferências com a participação de tecno – empresários “brasileiros” |
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expressavam a integração do projeto imperialista à modernização conservadora. Seu principal ideólogo e também o mais preparado de todos era o (à época dos anos 50) Coronel Golbery do Couto e Silva. Os EUA e o Brasil celebraram o PAM (Programa de Assistência Militar) e o Acordo de Assistência e Defesa Mútua. Nestes, se deram o intercâmbio de oficiais brasileiros serem treinados nas escolas de guerra norte – americanas. |
A criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) foi fundamental para a elaboração de suporte econômico – financeiro aos investimentos privados. Tudo dentro de um planejamento já pré estabelecido na criação da comissão Mista Brasil-Estados Unidos onde pontificavam o economista e tecnoempresário Roberto Campos (conhecido como Bob Fields tal sua subserviência aos interesses multinacionais), Glycon de Paiva e o Cel. Mário Poppe, entre outros. Não se pode eclipsar os nomes de Eugenio Gudin (mentor intelectual) de Octávio Gouveia de Bulhões, Lucas Lopes, José Luiz Bulhões Pedreira, Hélio Beltrão e Antonio Delfim Netto. Estes quadros introduziram aqui o conceito de administração pública espelhado no gerenciamento das empresas privadas que teriam por objetivo formular as diretrizes políticas para todo o país. Para sito, contavam, necessariamente, com um executivo federal que desconsiderasse as demandas populares e, ao invés, implementassem planos de metas condizentes com uma maior agilidade no desenvolvimento econômico voltado para a implantação de um processo de industrialização favorável aos grupos transnacionais.
O próprio Plano de Metas de JK foi traçado em decorrência dos “interesses nacionais”, terminologia bastante empregada pelos imperialistas ao tentarem passar por “pelo bem da nação” o que só traz lucros a um pequeno grupo de capitalistas. Assim, conseguiram introjetar numa elite pensante (e atuante) a idéia da “parte pelo todo” e, com isso, “justificarem” suas ações. Quando encontram “barreiras” e/ou “incompreensões” não hesitam em agir mesmo que ao arrepio das leis por eles mesmos criadas. Foi nos EUA que se criou o conceito de “Segurança Nacional” e, através destes acordos, introduzidos nos países de sua área de influência. Com isso, não vacilam em montar todo um aparelhamento policial-militar encarregado do “trabalho sujo” de reprimir, torturar e assassinar seus opositores. Nesse contexto, não tem os “bem intencionados” versus “mal intencionados”. É assim que tentam, alguns, escamotear que entre os “golpistas” havia os “bem intencionados”. Não há “mocinhos” nessa história; SÃO TODOS/AS BANDIDOS/AS. |
IPES/IBAD: O BINÔMIO DA SUBVERSÃO REACIONÁRIA
Ainda no período de transição Jânio – Jango, foi criado o Conselho das Classes Produtoras (CONCLAP), o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Suas funções: Levarem a cabo as tarefas de organizar empresários, políticos e militares com o intuito de adotarem passos para desestabilizar o governo João Goulart e, com isso, propiciarem um clima de desordem generalizada que favorecessem o desencadeamento de um golpe tantas vezes tentado e, sempre, malogrado.
O IBAD ficou encarregado de repassar os dólares enviados pelo governo norte – americano com o intuito de financiar todas as atividades golpistas. Entre elas, a criação de instituições, grupos, uns passageiros e outros já existentes, na “sagrada luta contra o comunismo ateu”. Pretexto, além de mentiroso, fruto da propaganda anticomunista que sempre permeou a formação dessas sociedades. Há uma obra seminal de Elói Dutra intitulada: “IBAD, A SIGLA DA CORRUPÇÃO”.
Quanto ao IPES, não à toa, o contato – fundador foi o empresário americano, Gilberto Huber JR que contatou o empresário Paulo Ayres Filho, no Rio, recrutador de João Baptista Leopoldo Figueiredo (tio do futuro ditador João Batista de Oliveira Figueiredo e oficial do SNI), então presidente do Banco do Brasil no governo Jânio Quadros. Sua fundação oficial foi a 29 de novembro de 1961. Logo após a renúncia de Jânio Quadros resolveram ativar o núcleo de estudos. Seu objetivo declarado era de “respeitáveis homens de negócio” interessados em participar “...nos acontecimentos políticos e sociais e apoiadores da reforma moderada das instituições políticas e econômicas... ” bem como “estudiosos das reformas de Jango e da esquerda...”. Foram muito bem recebidos, registre – se, pela imprensa como O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Ultima Hora. Foram, também, “abençoados” pelo arcebispo do Rio, D. Jaime de Barros Câmara, um católico reacionário até a medula. Se diziam apartidários mas, de fato, agiam como um partido político muito bem orquestrado. Fossem bandas marciais, não teriam dificuldade em tocar as marchas de John Philip de Souza, o profícuo criador de tantos dobrados militares...nos Estados Unidos e tão divulgados por aqui após a 2ª Guerra. |
| O binômio IPES-IBAD tinha funções específicas. O IPES agia como núcleo estratégico, ao passo que o IBAD era o elemento tático encarregado de todos os detalhamentos das atividades secretas ou não, arcando, inclusive, com os possíveis fracassos porventura decorrentes de seus atos. Neste papel “livrava a cara” do IPES, não expondo seus quadros dedicados, apenas, ao planejamento-coordenação do processo multiplicador de novos IPES/IBADs por todo o país. Vale lembrar, por exemplo, as atividades |
. Não há “capitalismo humano” ou possível de ser “melhorado” “atenuando – se a pobreza” e, assim, a perpetuando |
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do MRA (Movimento do Rearmamento Moral, à frente o Gal. Juarez Távora), a Cruzada Democrática Feminina e outros grupos formados de acordo com as necessidades impostas pela guerra psicológica de “luta contra o comunismo” que era como, usualmente, se apresentavam os organismos contrários às reformas distributivas de renda de Jango
e suas Reformas de Base. Para tal, contavam com a atuação de seus contatos na imprensa onde desencadeavam campanhas contrárias aos decretos nacional-reformistas de João Goulart.
Observe – se que a histeria se limitava à propaganda de ordem psicológica. Na realidade, o IPES foi o “partido” agregador dos interesses transnacionais que conseguiram engendrar um mecanismo bem azeitado e centralizador da “inteligentsia” da ultra – direita. Já calejada e escaldada de várias tentativas de chegar ao núcleo do poder central e que, só, então, conseguira estruturar - se via seus quadros tecnoempresariais, militares da “Sorbonne made in USA” (ESG) associados aos políticos que, para os primeiros, eram “aliados de ocasião” e que, na hora certa, eles excluiriam de seus planos. Tal foi a sorte de Carlos Lacerda e seus confrades do “Clube da Lanterna” (grupo antigetulista dos anos 50) que viram sua candidatura à presidência em 1965 ser cassada pelos mesmo aliados golpistas para os quais tanto havia colaborado e que com ele marcharam por toda a década de 1950 – 60 “unidos pelo anticomunismo”. |
Esperamos que, com este artigo, tenhamos colaborado no sentido de fazer com que mais pessoas se interessem por estudar nossa “história recente” e pesquisem a fim de lançarmos mais luz no presente que se apresenta tão adverso aos lutadores e resistentes que acreditam numa SOCIEDADE SOCIALISTA apesar de todos os reveses já sofridos. Não cremos na militância sem estudo (empirismo) nem no estudo sem militância (academicismo). Convém relembrar que nossa preocupação em formular estes pontos de estudo diz respeito à nossa militância diuturna contra o sistema capitalista excludente pela própria natureza. Não há “capitalismo humano” ou possível de ser “melhorado” “atenuando – se a pobreza” e, assim, a perpetuando. Há várias entidades que recebem dotações financeiras e/ou materiais - tipo Fundação Ford, Fulbright, Lindon Johnson que sempre atuaram junto com a CIA para evitar revoluções socialistas a fim de não permitirem que as “lutas sociais” (esta expressão tão em voga tenta esconder as lutas de classe) se transformem em lutas contra o capitalismo. Que fiquem apenas no campo das reformas cosméticas, superficiais. Contam, agora, com os acima referidos, “cristãos novos”, ex – militantes dos anos 60-70 que só querem “mitigar a fome do povo” em programas de institucionalização da esmola. Combater o “trabalho escravo” e “promover a inclusão social” no mercado de trabalho capitalista sem, entretanto, combaterem o sistema que gera a eterna luta de classes. Assinar a carteira de trabalho é suficiente? São como os negros da casa grande. Se contentam em comer na cozinha e se “adaptaram”. Já, os da senzala, são rebeldes, revolucionários e teimam em formar novos quilombos e NÃO ACEITAR QUALQUER TIPO DE OPRESSÃO. É o nosso caso. VIVA O SOCIALISMO!
ATÉ A VITÓRIA, SEMPRE! (CHE GUEVARA)
Antonio (Lúcio) e camaradas do Coletivo Brasil Revolucionário (CBR) |
Outros textos do autor:
GOLPE DE 1964: UMA ALIANÇA REACIONÁRIA OU MUDAR PARA TUDO CONTINUAR DO MESMO JEITO
1º DE MAIO: PROTESTAR OU COMEMORAR
Abertura dos Arquivos da repressão - Uma visão classista - por Antonio "Lúcio" - Coletivo Brasil Revolucionário (CBR), membro do Comando Político - Militar do PCBR na clandestinidade.
OS MOVIMENTOS CULTURAIS NOS ANOS 1950/60 |
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