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Educação |
Por: William Ospina
(Lido na clausura de Metas 2021, da Organização dos Estados Ibéricos Americanos) |
UMA COISA É A EDUCAÇÃO E OUTRA é o sistema escolar. Por momentos coincidem, porém a educação começa muito antes da chegada das crianças às aulas. Por isso tem tanto sentido a frase de Bernard Shaw: “Minha educação se viu interrompida com meu ingresso na escola”.
A primeira forma de ensino é o exemplo, e o mais importante é a coerência entre o que se diz e o que se faz. Kafka via com alarme que os pais proibia a seu filhos exatamente tudo aquilo que lhes permitia fazer na mesa e na vida, e dai nasceu sua crítica espantada nas arbitrariedades do pátrio poder. Nossos primeiros educadores são pais, parentes, amigos, pessoas desconhecidas nas ruas, autoridades, governantes e os meios de comunicação. |
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Muitas vezes, quando uma criança chega na escola, os traços fundamentais da sua educação e o acaso de sua existência já estão traçados. E assim como existem influências também existem vocações, aquilo que na fisiologia e na sensibilidade nos predispõe a determinados temas e disciplinas. Por isso é tão importante que desde a primeira etapa da vida se nos escute e não só se nos ensine. Ver a uma criança como um cântaro vazio que tem que encher de coisas, de informações, de deveres e rigores, é esquecer que em cada instrumento existe já a pauta de um som, que existem madeiras que contém canoas e madeiras que contém violões.
Um bom professor não é só quem sabe falar e sim sobre tudo quem sabe escutar. é aquele que descobre que potro está fechado no bloco de mármore. E por isso é tão nociva a sobre exposição nos meios de comunicação, que sempre falam e nunca escutam, e que sobre tudo são incapazes de escutar o implícito, o que todos dizemos sem falar.
O aprendizado do nosso próprio valor, de nossa própria dignidade, é o primeiro. Nunca ira saber nada aquele que não sabe de seus próprios direitos e possibilidades. Por isso a educação que tiraniza e |
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desrespeita, a educação que massifica, é fonte de todos os fracassos e de todas as violências. Por isso a educação não é simplesmente a solução dos problemas da sociedade: às vezes é o problema. Pode nos educar na exclusão, no racismo, na divisão de classes, nas manias da estratificação social. Somente certo tipo de educação forma realmente indivíduos e cidadãos. |
É ingênuo pretender que se a criança chega a escola já temos cumprido nossos deveres com ela: também devemos nos perguntar que escola é essa e que tipo de sociedade está erguida. Acabo de ler o informe que uma revista traz esta semana, sobre crianças mortas de medo de ter que ir a escola, porque para chegar tem que atravessar entre balas. O país é uma grande escola na que crescem as escolas pequenas, e se tudo é um campo de guerra, onde a única oferta de emprego para jovens é a violência paga por todos os exércitos, de pouco serve que na escola se alterem os discursos de Platão e de Cristo.
O primeiro que temos que aprender é não fazer armadilha, a respeitar aos outros, a respeitar o nós mesmos, a ter um sentido de comunidade, a apreciar o valor do trabalho. Sentirmos pertencer a uma memória, a um território, a um sistema de valores. Estão nossa sociedade e nossa escola nos formando nesses princípios? Que as pessoas tenham tido uma custosa educação não significa que sejam bem educadas: parte da violência que padecemos não é fruto de seres iletrados; basta ver os foros dos jornais para entender que existem pessoas que escrevem com ódio e com violência; um dos maiores males de nossa sociedade, a corrupção, costuma ser obra de pessoas que já tiveram tudo, incluindo títulos universitários. |
Os planos de alfabetização às vezes esquecem que a leitura supõe pelo menos três elementos: a decifração, a compreensão e a critica... |
Tenho dito que primeiro aprendemos pelo exemplo. Em segundo lugar, creio que aprendemos pelo dialogo. Este não somente nos inicia no conhecimento de que existe uma verdade, e sim na consciência de que podemos à interrogar-la, martirizar-la, atrever opiniões. O dialogo estimula a curiosidade e o desejo de saber. E sendo assim podemos perceber a importância das artes na informação de nossa sensibilidade, de nossa profunda humanidade. Emmanuel Kant deixou escrito que o mais importante das artes é a conversação. Porque nela intervém a memória, a inteligência, o caráter, a sensibilidade, o conhecimento dos outros e a imaginação. Nessa arte os amigos são nossos professores, e os professores são nossos amigos. |
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Em terceiro lugar esta, claro que sem, a leitura. Os planos de alfabetização às vezes esquecem que a leitura supõe pelo menos três elementos: a decifração, a compreensão e a critica. Conheço pessoas que podem soletrar, decifrar um texto mas não compreende. Basta ouvir alguém ler em voz alta para saber se está compreendendo o lê. E quando falo de compreensão falo a vez de entender um texto e de sentir-lo.
Existem pessoas que me tem confessado que entendem um poema quando o lêem , porém que somente o sentem quando escutam a outra pessoa o dizendo. Porque há uma carga de emoção nos textos, e não somente nos textos poéticos, um conteúdo de beleza, de sentimento, de paixão, deleite ou de maravilha, que vai mais além do mero entender, que exige a participação das emoções, que está governado pelo ritmo e si se quer por a música.
Finalmente, a leitura verdadeira tem que ser capaz de criticar, dialogar com o texto, de, de atrever objeções , de construir a partir das opiniões próprias, outras alternativas, outros sentidos e desenlaces. Em que parte da educação formal está incluída a formação da sensibilidade e do critério? Queremos uma educação que nos faça bons profissionais e bons operários, mas sobretudo uma que nos faça valentes cidadãos e lúcidos seres humanos. Quem nos ensina a ter opiniões próprias, serias e racionais? Quem nos educa para não ser cata-ventos baixo a manipulação de tantos poderes e interesses que hoje controlam o mundo? Como formar parte de uma civilização e não de um reduto de interesses o de um acampamento de sobrevivência? Como pensar e viver em função do engrandecimento de uma sociedade e não da defesa mesquinha e as vezes suicida de um mero projeto pessoal o de grêmio ?
A partir de certo momento a educação somente pode ser ativa. Compartir conhecimentos, investigar, criar e fazer. A investigação, a experimentação e o trabalho são instrumentos, porém somente podem nos servir se a essa primeira educação que nos faz humanos e cidadãos se há cumprido com coerência e com profunda responsabilidade.
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William Ospina
Imagem retirada no livro A vida na escola e a Escola da vida
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