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Se os tubarões fossem homens |
“'Se os tubarões fossem homens', perguntou ao Sr. K. a filha da sua senhoria, 'eles seriam mais amáveis com os peixinhos? ' 'Certamente', disse ele. 'Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca, e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, |
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um peixinho ferisse a barbatana, então lhe fariam imediatamente um curativo, para que ele não lhes morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes. Naturalmente, haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para as goelas dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que esse futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um dentre eles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, eles iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardins onde se brincam deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que a seus acordes todos os peixinhos, com a orquestra na frente, sonhando, embalados nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores, detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc. “Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens”. |
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BRECHT, Bertolt. Histórias do Sr. Keune |
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UMA PLATÉIA DE TÍMIDOS |
E lá estava ele pela terceira vez seguida para assistir ao espetáculo. Como sempre não sentaria nas primeiras fileiras, mas dessa vez, assim como ele, todos os presentes buscariam sentar nas fileiras de trás de modo que, ao menos as três primeiras fileiras da frente, próximas ao palco, permaneceriam vazias durante toda apresentação.
Inseguro, procurava nem ser o último a adentrar ao recinto, tão pouco ser o primeiro, temeroso que era dos olhares alheios. Lembrava-se de uma vez em que, tomado de uma tosse súbita, teve que ouvir em uníssono um shiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Na fuga, pensou em jamais voltar à casa de espetáculos, porém a paixão pela arte fora maior e ali estava ele novamente.
Eis que o ator sobe ao palco e com ele as frias palmas para recepcioná-lo, indicando algo de estranho no que veria a seguir. |
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Que se passara? Ele nunca que batia palmas antes dos outros para evitar os ditos olhares; fazer com que suas palmas fossem as últimas a aplaudir qualquer artista era-lhe impensável. Isso nunca, dizia para si mesmo. E não porque achasse tal atitude ridícula, mas, apenas para não correr o risco de ser um eventual centro das atenções. Sua atenção era tanta nessa questão que, com o tempo, até aprendeu a identificar com facilidade aquelas pessoas, cujas palmas, mais despojadas, puxavam as outras em tais eventos. Da mesma forma sabia que as palmas daquela pessoa que aplaudia por último, indo para além das palmas sintonizadas, assim como as primeiras, partiam de gente ousada. Uma gente que, sem ser artista, valia-se de uma apresentação qualquer, não importando sua natureza, nem qualidade, aproveitando-se daquele momento para, também ele, o batedor de palmas, vir a ser, mesmo que só por um instante, alguém em destaque. Sinceramente admirava essa gente pela ousadia. |
Mas voltando-se para a frieza do público dirigida a quem se prontificara a distrair seus espíritos, ele simplesmente não entendia o que estava ocorrendo e porquanto essas reflexões rondavam sua cabeça, passou a fazer uma observação no evento que agora presenciava. Não se tratava do ator, nem da obra em questão, ambos, impecáveis, mas sim, do público, seus irmãos na arte da apreciação.
É que já havia certo tempo que o ator se encontrava no palco, entretanto, era como se ali não estivesse, tamanha era a indiferença do público para com aquele que se desdobrava no palco para agradar a todos os presentes.
Ele percebia que, contrariando a regra, ninguém, assim como ele, ousava ser o primeiro a bater palmas, a gritar bravo ou bonito e outras coisas mais que se supõe, contagia aos demais e faz desaguar em seguida um turbilhão de palmas e assobios e incentivos que faz qualquer pessoa sobre o palco se afirmar cada vez mais naquilo que ela se propusera. Em igual proporção eram as tais palmas últimas, praticamente não existindo. Assim, sem uma palma inicial e outra final todo o espetáculo estaria comprometido, coisa que o ator já havia percebido e tentava, sem sucesso, resgatar o hábito do público historicamente construído. |
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Esse acontecimento o levou a indagar sobre a possibilidade ou não da arte existir sem a interação do público. Estarrecido com o que via a sua frente, tornou-se, de súbito, um incrédulo quanto àquela velha patuscada da arte pela arte. Ora, se a arte se recusava a emergir sem o consentimento do público, imagina então o que viria a ser uma arte com suas patas firmes, capaz de erguer-se sozinha frente ao homem e olhar-lhe nos olhos. E olhar, não como ele costumava fazer (pelos cantos dos olhos), mas, olho no olho, numa fortaleza tal que, contendo as paixões, displicentemente, funcionasse como uma espécie de cronômetro da alma humana, frias janelas para sempre fechadas à arte interessada. |
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Mas, por falar em cantos dos olhos, eis aqui uma correção que faria em seguida. Aquela gente do público não era, por assim dizer, indiferente a exibição do que se passava no palco como ele a principio havia intuído. Não, pelo contrário, como ele, elas também eram pessoas que olhavam de soslaio, temendo encarar o mundo de frente, por isso a ausência de palmas iniciais e finais. Mas, ainda que contidas, não se podia negar, elas, as palmas existiam naquele ambiente. Palmas abafadas, quase nem chegando ao ouvido do ator, daí a insatisfação do miserável, seu desespero, mas enfim, as palmas, truncadas ou não, ali estavam, já ninguém as podiam negar.
Teve dó do ator, porém agora sabia que não era culpa do público, apenas se tratavam de almas gêmeas à dele e que por acaso e infelicidade e unidos pelo mesmo desejo encontraram-se todos num mesmo dia, num mesmo horário, num mesmo local criado apenas para o deleite, o regozijo e descontração de quem se reconforta na segurança da vida escura de uma platéia. Não, o público não tinha culpa!
Nesse momento pensou na possibilidade do ator provocar, num ato de autopunição, a sua própria morte em pleno palco, tamanha era sua decepção. Chegou a pensar mesmo em ajudá-lo, num tiro de misericórdia que, partindo da platéia em direção ao palco, aliviaria para sempre as dores do artista.
Não, não faria isso. Primeiro porque não tinha uma arma ali consigo, tão pouco sabia atirar e depois, após sua ação, certamente as luzes se acenderiam repentinamente e ele teria que passar por todo aquele dissabor da peneira da lei, não podendo desviar o olhar dos olhos dos homens da lei, sendo inquirido e por fim identificado e exposto para sempre aos holofotes da justiça e da vizinhança sempre muito bem informada pelos meios comunicativos de toda forma de imprensa.
Não, definitivamente não faria isso, além do que, quem sobe ao palco, justificaria para si mesmo, estava preparado para vivenciar essas situações, para isso era um artista, argumentou triunfante.
E somente não estava convencido de todo porque o tempo presente, por oposição ao tempo futuro, era inimigo dos homens, recusando-se a passar. Senhor - exclamara na alma - porque um espetáculo que não duraria mais que uma hora e meia, hoje lhe parecia que se arrastava para bem mais de cinco horas?
Enquanto perdia-se nessas indagações sequer dera conta de que o triste espetáculo, numa peripécia do tempo, caminhava para seu desfecho, por isso, com a lucidez vindo à tona, o suor passou a lhe fazer companhia, escorrendo pelo rosto. Isso porque a agonia do artista era, por assim, dizer,a sua própria agonia, interiorizada, marcando-o feito rugas ao marcar as peles dos velhos.
Fez menção de mover-se abruptamente, fugir, ganhar as ruas, entretanto, os olhares sobre quem se levanta primeiro, sem dúvida, seriam fulminantes, ele não se arriscaria.
Luzes acesas, já era tarde para qualquer improviso, o artista já se encontrava por detrás das cortinas e pouco desejoso de voltar ao palco para as palmas de fim de espetáculo que, presumidamente, não ocorreria. Agarrado aos cantos dos olhos, saiu como aos demais, passos medidos, contendo os desejos de ser cavalo selvagem e partir em disparada, mantendo a firme convicção de nunca mais voltar àquele ambiente, a mesma atitude, quiçá, tomada pelo artista, pois, após aquele fatídico dia nunca mais se ouviria falar naquele pobre infeliz. |
09/08/2009,
Carone. |
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A MORTE DO HOMEM E DA MULHER FORMIGA
--eu fiz um pacto com a prostituição a fim de semear a desordem por entre as famílias--
Maldoror
Vinte e cinco séculos percorridos e nada das formiguinhas desistirem. Basta olhar para baixo e lá estarão elas e, se sonham grande, dão por escalar paredes e nada mais.
Dispensa-se a esperteza para saber o que é uma trilha de formigas, pois esta sempre será a mesma, um caminho estreito, feio, feito por e para elas não só trabalharem, bem como bater cabeças umas nas outras.
Fala-se que outrora, exaustivamente, elas faziam tal percurso carregando folhas para a moradia e que posteriormente, após singular ruptura dada após a invenção da República das rainhas-filósofas, passaram a carregar certificados e identificações afins.
O fato é que nesses séculos todos, salvo as pretendentes ao cargo de rainhas, rainha filosofando que é bom, não surgira uma sequer. Mas, e as tais formiguinhas? Essas vão muito bem! Percorrem distâncias longínquas levando seus certificadozinhos na cabeça e com isso testam seus limites.
Eis o resultado aqui chegado, ilustrado pelo século XX, desse eterno caminhar: duas guerras mundiais, a liquidação de judeus por alemães nazistas, a liquidação de palestinos por judeus sionistas, o extermínio de povos originários inteiros (simplesmente por se recusarem a portar certificados!), a devastação de florestas, a poluição de rios e mares, crianças que carregam um adulto em seu corpo juvenil, adulto que não consegue livrar-se de sua infantilidade retardada, produtores famintos recusados pelas coisas (coisas produzidas por suas próprias mãos). E também, como não poderia deixar de ser, a produção sistemática de teses, teses e mais teses que, de tempos em tempos, serão afogadas em vinagre para, quiçá, afastando o cheiro de bolor, despertar possível apetite futuro. Claro, não esqueçamos da produção, dos já citados, certificados e as formiguinhas sempre prontas a carregá-los, pois, assim caminham as formiguinhas! |
PROPOSTAS DE MANUTENÇÃO DO MUNDO DAS FORMIGAS:
- Demolição do muro que envolve a universidade e construção imediata do muro-de-vidro-concha-aconchegante ao redor da mesma*;
- Convênio e construção imediata de uma casa de cultura Mcdonalds no interior do campus. Fica desde já estabelecido que as refeições serão servidas em pratos de amianto coloridos;
- Ônibus especial cuja trajetória possibilite conhecer melhor a comunidade. Destaque para os lencinhos do adeus, fartamente distribuídos a todos, porém, somente podendo ser acenados quando o veiculo passar pelas favelas da região.
- Bolsa auxilio-barracas. È o que mais se tem de moderno no mundo atual (vide Estados Unidos e Japão). Todo aquele (a) que não tem onde morar, agora não se sentirá mais desamparado pela instituição do saber. Bastará preencher o questionário sócio econômico e uma comissão social irá analisar cada caso pendente**.
- Uso obrigatório de crachás no interior do campus com o seguinte dizer: a coisa, logo acrescido de dois pontos e o nome da coisa em questão.
*Cidadania não se teoriza, se pratica! Aproveitando o potencial de aproximação com a comunidade, bem como a farta distribuição de bolsa-auxílio, em caráter emergencial deverão ser contratados para este trabalho, tantos os futuros doutores, assim como moradores da região. Cinqüenta por cento em número de vagas para cada parte mencionada e ficando já estabelecido a divisão do trabalho, onde os primeiros ocupar-se-ão da parte norte da construção e cabendo aos segundos a parte sul, evidentemente. A reconstrução se dará por outras pessoas, ainda que do mesmo tecido social, cabendo apenas manter a divisão das estruturas em grupos Norte e Sul, respectivamente.
** Importante: não esquecer de por o X no questionário do quesito auxilio-moradia. |
PROPOSTA DE MORTE PARA O HOMEM E MULHER FORMIGA (MORTE PARCIAL E SANGRAMENTO DERRADEIRO)
Não sabemos muito bem como se deu o processo de ressurreição e salvação em causa própria por Aquele que se propunha salvar o outro, incluso o seu inimigo. De qualquer forma a salvação será sempre uma tentação da qual ninguém jamais escapará.
Para o homem e mulher formiga tal possibilidade é real, aqui e agora mesmo em nossa boa mãe Terra. Para isso basta aceitar ao menos uma consigna fundamental: MORREIS HOMENS E MULHERES FORMIGAS; RESSUSCITAI O HUMANO DENTRO DE CADA UM DE VÓS!
Vestígios dessa morte e busca poderá ser encontrada no seminário surrealista, cujos protagonistas, (tão formigas: obedientes e medrosos de chuva, como a qualquer um de vós), deverão apresentar em uma das unidades do pensamento fatiado, a sala de aula!
Dois tamanduás com seus respectivos focinhos-aspirador os esperam, Luis Buñuel e Salvador Dali. Dois filmes, dois punhais (ou bisturis se preferirdes), vos conduzirão a uma boa morte, UM CÃO ANDALUZ E A IDADE DO OURO.
Como parte integrante, instigante e instrutiva haverá uma cópia expositiva da obra de Salvador Dali “O Grande Masturbador”, o que deverá ilustrar e ancorar a leitura do poema “Ode a Masturbação”, trabalho de um dos seminaristas dedicado ao finado Papa João Paulo 2º (quando este já se encontrava moribundo), e graciosamente estendido ao querido e atual Papa Benedito XVI, ponte entre nós, moradores do andar de baixo com Ele, o Morador do andar de cima.
Nada se deve temer, afinal, como já dizia o outro, ou a morte é o eterno sono onde nada acontece ou, do contrário, há o Paraíso das formigas, repletos de folhinhas, açucares, sem tamanduás e inseticidas em geral e claro, uma boa rainha-filósofa sempre disposta a ser bem servida. Se da morte pouco sabemos, fica-nos a tranqüilidade (para nós, homens e mulheres formigas), a de uma grande viagem que poderá começar pelo focinho de um tamanduá e terminar no final de seu intestino grosso.
Venha, pois a vida é feita de cérebros, músculos, sangue, suor e sonhos! Venha sem receios, só não esqueça seu guarda-chuva, sua identidade, seu bom dia.
Leituras interessantes:
-OS CANTOS DE MALDOR - autor: Isidore Ducasse.
-HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E DE FAMAS (especialmente a crônica “como matar formigas em Roma), autor: Júlio Cortázar.
-A CONSTRUÇÃO DA MURALHA DA CHINA - autor: Franz Kafka.
Unifesp campus Guarulhos, maio de 2009,
Os proponentes.
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VOLTANDO AO PARAISO
(Durma com Deus) |
Não vou dizer que a merda chegava até o pescoço, porque, vim, a saber, depois, era época de escassez, com ela não me passando do umbigo, não obstante, caminhava por uma longa estrada de merda.
Tinha os passos atrasados, fazendo minhas necessidades sem senti-las, perdido que estava em meio a tanto merdeiro e esforço físico, seguindo viagem, atraído por aquele estranho caminho, como o planeta arrastado pelo o Sol.
Tirando os animais que apareciam aqui e ali e os vermes sugando meu sangue morno, no mais, era um solitário por todo o transcurso.
Dos dois lados da estrada, uma horripilante selva negra, com gemidos semi-humanos vindos de seus confins animava-me a seguir adiante.
Claro que não negarei a sedução de encontrar um galho de árvore no meio do caminho convidando-me a sair do atoleiro e retirar a mão apressada do mesmo, pois sobre ele, um animal, metade serpente, metade troço de merda, recordava-me que o melhor era continuar pelo o caminho de sempre.
Houve momentos de pura irritação, como a que tive ao passar por um sapo de uns dois metros de altura na beira da estrada, jogando-se na mesma como se fora em um rio, repetindo incessantemente aquele feito idiota, espalhando merda sem parar e claro, emporcalhando-me todo.
Vez ou outra, a margem da estrada, uma ovelha aparecia, com lágrimas nos olhos, como quem diz: que lástima, está chegando mais um!
Uma pomba branca fazia das suas, brindando-me a cada instante com belas cagadas em minha cabeça, desaparecendo e reaparecendo mais a frente para repetir sua gloriosa façanha.
Depois de uma longuíssima jornada, exausto, sem noção das horas, dos dias, dos meses e sem qualquer noção do tempo, vi ao longe um casebre.
Era um triste dia em que um nevoeiro servia-me por companhia.
Passo a passo fui me aproximando, com minha chegada sendo anunciada pelo relinchar de um jumento. Amarrado a um cipó trançado com espinhos, ao lado direito do casebre, o infeliz estava enterrado na merda e somente mantinha a cabeça e parte de seu sexo para fora.
Escutei um ranger de porta e fiquei frente a frente com um homem de cara abatida, olhos fundos e cara preguiçosa que, no entanto continuava o mesmo: “alto, loiro e de olhos azuis”.
Ele me falou: Bem-vindo filho, entre e descanse, pois aqui passarás a eternidade.
Entrei sem nada dizer, vendo meu anfitrião encostar a porta com a velha cruz de madeira. Era tal o cuidado com a cruz que pensei que aquilo só poderia ser amor antigo, mas nada falei.
Ouvi o tossir e o escarrar juntos há grunhidos que ora imitava palavras inadequadas da boca humana, ora lembrava o rosnar de cães ensandecidos vindos de um quarto no fundo do casebre.
Ao meu olhar curioso, o anfitrião explicou: É o Velho!Está muito mal. Deve estar em seus últimos dias, acrescentou.
Do quarto também se ouvia peidos altíssimos e estremecedores que me fizeram recordar o porquê, durante meu percurso na estrada, os trovões, nunca que eram acompanhados por chuvas.
Meu anfitrião também falou de sua mãe. Que ela tinha passado os últimos séculos cuidando do Velho. Que lhe fazia compressas diárias com uma toalha e água morna em sua testa de febre terçã.
O tempo parece não ter apagado as gentilezas de meu anfitrião que, sempre educado, ofereceu-me um pedaço de pão, desculpando-se por não ter outro, senão aquele, velho e duro pedaço de pão.
Fiz que não vi quando o mesmo retirou uma barata morta de um meio copo de vinho e o dirigiu a mim, dizendo com um sorriso quase ingênuo: Paulo passou por aqui ontem a noite. Ele tomou quase todo o vinho que tínhamos.
Falou da nova teoria de Paulo sobre a “abolição da masturbação” entre os anjos. Segundo essa curiosa teoria, os anjos, por serem assexuados, praticavam sexo imaginário e não faziam outra coisa que não fosse acariciar a parte do corpo aonde deveria de estar o sexo.
Paulo é um gênio, exclamou meu anfitrião. Certamente sua nova teoria vai funcionar, disse com olhar triunfante.
Nesse momento senti o que a principio parecia-me ser um jorro de água em minha cabeça.
Falei a meu anfitrião que o teto de sua casa estava quebrado e que chovia muito.
Ele me contestou com a cabeça e com o já conhecido meio sorriso, gritou em direção ao teto: Desça daí, Gabriel!
Uma vez mais meu anfitrião desculpou-se, esclarecendo que, na verdade, eu acabava de receber uma boa urinada na cabeça e que, Gabriel, o mais impertinente e fofoqueiro de entre os anjos, era o responsável.
O bom homem continuava divagando horas ininterruptas sobre seu agradável ambiente sem ter de minha parte qualquer indagação.
Atento, percebendo que gritos vindo do porão me chamavam a atenção, ele então, com a sua doce voz, novamente gritou: Já chega João, Roma já passou! Pare com isso, homem de Deus, que hoje temos visita.
Só depois das explicações é que pude compreender aqueles gritos: “Roma, prostituta ornada de ouro e prata!” e “Ninguém viverá sem a marca da Fera de dez cabeças!”, entre outras coisas mais.
Pus-me de acordo com meu anfitrião quanto à sorte do pobre diabo, que, por uma questão de segurança para todos, era melhor mantê-lo trancafiado dentro do porão.
Arrisquei uma olhada por uma janela de vidro toda quebrada, cheia de pó e teia de aranha.
A uma distancia de uns trinta metros pude ver uma entrada e um velho na frente, com uma enorme barba branca, segurando uma espada, cuja ponta tocava ao chão, servindo-lhe de bengala.
Pela primeira vez resolvi perguntar sobre o significado de tudo aquilo.
Meu anfitrião, prazerosamente me respondeu: Em verdade, hoje, dormirás aqui e amanhã passarás para o lado de lá, donde seremos eternos vizinhos.
Disse-me que ali era o Jardim do Éden, para onde todos voltariam um dia e que o velho era o Anjo Guardião da entrada do Paraíso, com sua espada flamejante, mas que, com o tempo, a mesma perdeu o encanto e hoje, toda cheia de ferrugem, servia de apoio ao miserável que já nem se recordava de sua antiga função.
Das poucas árvores restantes, ainda pude identificar uma macieira, murcha, que certamente, havia muito que não dava frutos, conclui mentalmente que o conhecimento ali, para sempre, estava abandonado.
Entediado, cansado e com sono, perguntei a meu anfitrião onde passaria a primeira de minhas eternas noites.
Ele, com sua suave voz, falou-me: Meu amado filho, aqui só tem duas camas.
Uma, a de solteiro, é para mim. Minha mãe, essa não tem cama, pois há muito que a pobre mulher não sabe o que é dormir. Resta uma vaga em uma cama de casal onde dorme meu Velho Pai, portanto eu vos digo: DURMA COM DEUS!!!
19/05/2005
Carone
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AI, MINHA COLUNA!
(Uma crônica de metrô) |
PARTE UM: |
Ali não estava nenhuma alma sagrada, isso ele sabia. Houve tempos em que tomava seus tragozinhos, discutia fervorosamente sobre futebol e uma vez até quase que escorregara na infidelidade da vida conjugal, porém, em tudo, nunca fora às últimas conseqüências. Sempre o caminho do meio, lição passada de pai para filho e seguida à risca, com esforços, é verdade, mas enfim, seguida!
Um homem que não diferia dos demais, salvo uma dor nas costas fora do comum que muito das vezes o fazia mal humorado, quase um não-cristão.
Foi numa dessas dores acometidas em pleno fim de tarde, na volta para casa, depois de um dia exaustivo, espremido em um dos vagões do metrô paulistano, que resolveu sair da estação, respirar outros ares e esperar a diminuição do fluxo e também para se afastar um pouco daquilo que em seus momentos de cólera ele denominava por pedaços de carne neurotizados.
E aqui cabe uma explicação para tão dura sentença para com seus iguais partindo de um homem casado, pai de uma filha, cujo namoro não desaprovava e que tão pouco consentia com a cabeça, já que os olhos negavam.
-- Ele tá pensando que minha filha é o que, aquele filho da..., e nunca terminava tão singela terminologia interiorizada.
Homem pacato que tinha animais de criação, que se despedia exemplarmente toda manhã da mulher amada e que dava bom dia aos vizinhos que acordavam cedo para por o lixo domiciliar na rua no dia exigido.
Na verdade, quando da saída do metrô, nosso homem fora é saído, empurrado, jogado do vagão na estação-Sé, num golpe por detrás cuja ressonância verbal foi seu grito: ai, minha coluna!
Não houve tempo para nada, na Sé, no final de tarde, não se tem compaixão por ninguém, sua situação não fugiria a regra.
Ele que já vinha irritado com aquela poluição sonora do operador do trem do metrô: “no metrô não é permitido”, nem isso e nem aquilo e que se sentia o próprio Crucificado com aquela outra provocação costumeira operacional: “quem fica na porta atrasa a vida dos outros”. Canalha, porque não vem ele aqui pra ver como é bom viajar nessa lata de sardinha, repetia no íntimo o jargão popular.
Logo depois, do lado de fora da estação, percebeu que sua dor era maior que as anteriores, por isso, cansado dos inúteis analgésicos, resolveu procurar alivio imediato, uma massagem para por fim em tão horrível dor.
Isso não foi difícil, difícil mesmo foi convencer a recepcionista a aceitar seu parco dinheiro, um contraste com a tabela exigida |
Desgostoso da vida saiu cabisbaixo com a dor que era só sua, pensando no por que nada lhe dava certo na vida. Por que tinha sempre que sofrer?
Entregue a autopunição reflexiva recordou-se da oferta negada por suas mãos no fim do culto, quando levado por colega de trabalho, quis um dia ser irmão de todos, filho convocado para a graça do Senhor. O que não foi muito longe.
Recordou ainda duma outra situação, ocorrida tempos depois, quando se predispôs a ler um livro, escrito já não se lembrava mais por quem, mas que, todavia, ditado por um espírito bem-feitor, o qual também já não se recordava do nome e que lamentavelmente não chegara à página vinte do total das quase duzentas da dita brochura.
Senhor, o que estaria se passando, que mal ele teria feito, indagava. Seriam suas inconclusas leituras espirituais o padecer desse seu pobre corpo?
O livro deveria estar em algum canto da casa, falava consigo mesmo, quando de súbito, um psiu de Eva soprado em sua direção fez um par contrastante com sua cara sofrida.
-- Vai um programinha hoje, gatão?
Ele sabia que não era gatão coisa nenhuma, longe disso e mais, a garota teria mais ou menos a idade de sua filha (o que lhe fazia ruborizar a face), mas nessa hora o instinto de sobrevivência impulsionou-o para ela. Virou com vagar para um lado e com mais vagar ainda pro outro, evitando assim um segundo estalo sucessivo na coluna enferma e perguntou meio que desconfiado de possíveis olhares alheios:
-- Quan..., quanto é?
-- Sessentinha, meu amor, com direito a tudo.
--Tu, ai, tudo é sessenta e se for, ai, só alguma coisa?
--Só alguma coisa? Como assim, meu anjo, eu não tô te entendendo?
--Bem, é que, ai, eu, eu sou casado e...
-- Ah, já sei você quer ter alguma fantasia que não consegue ter com sua mulher, não é?
-- Não, não, ai, não é isso que, que eu quero dizer, eu sou bem casado, viu!
-- Ai, homem, deixe de complicação. Se for segredo que você quer, fique tranqüilo que aqui ninguém vai saber de nada, queridinho. Nessa cidade todo mundo é devorado e ninguém encontrado, arrematou a voz de quem sabe o que faz.
-- Mocinha - ele foi direto ao assunto - han, han, eu quero saber é, é o seguinte, sessenta você cobra para fazer amor, mas quanto você cobraria para fazer uma massagem nas minhas costas?
-- Hei, mas como, eu não sou massagista, não! Se você tiver tirando uma comigo, pode cair fora, cara!
-- Calma! Calma menina, eu só gostaria que você fizesse uma massagem e eu te pagaria pelo serviço.
-- Olha - falou a garota, já mais tranqüila, quando viu a verdade nos olhos daquele pobre diabo - eu nunca fiz isso antes, mas sempre tem uma primeira vez, não é verdade?
-- Sim, meu anjo! Você me faz um precinho camarada e eu juro que não peço nada mais do que uma massagem pra você.
-- Tá bom, pro senhor eu faço mais barato, quarenta conto, falô?
-- Num, ai, num dá pra ser um pouquinho mais em conta, menina, eu só tenho trinta.
-- Trinta e cinco por vinte e cinco minutos e não se fala mais nisso!
-- Pó..., posso dá trinta em dinheiro e um tíquete de sete e cinqüenta? Você ainda ganha dois e cinqüenta a mais.
--Beleza coroa, mas vámo logo, porque eu não posso perder muito tempo, não.
E desceram para um hotelzinho desses inúmeros do centro de São Paulo, onde o pior ainda estaria por vir. |
PARTE DOIS: |
Foi o mais rápido que pôde, seguindo aquela moça que caminhava a sua frente e lhe voltava, vez ou outra, um olhar para trás como quem estivesse fazendo um favor a alguém. Era como se naquele momento seu magro dinheiro fosse despido de todo poder e nada mais fosse que um papel qualquer e ele, desarmado de toda simbologia de poder, devesse se arrastar atrás daquela que estava prestes a lhe dar a redenção.
À porta do hotel, novo desalento, agora com os degraus escada a cima. O esforço valia a pena e ele não iria desistir agora. Estava convencido e para tanto ignorava dor, suor e respiração ofegante.
Ao cumprir tal etapa seguiram por um corredor estreito e escuro em direção a um quarto. Chegou a pensar no fato de nunca ter se despido na frente de outra mulher que não a sua, o que lhe deu certa insegurança, logo afastada por algo que lhe veio à mente, quando de sua juventude, estudante aplicado, que sonhava ser um dia, quem sabe, grande intelectual.
“Primeiro o pão, depois a moral”, trazia consigo essa máxima, cuja autoria ignorava, porém, para momentos como aquele ainda era ela de grande valia.
O olhar seco da mulher exigia-lhe rapidez, por isso entrou sem pestanejar, ainda que se sentisse um cliente que consome cerveja barata, ali estava ele, entregue àquelas mãos salvadoras e que certamente fariam o milagre necessário.
-- Tire a roupa, disse ela, no que foi atendida de imediato.
Claro que despido de camisa e calça, a cueca mantida era mero detalhe a confirmar sua real intenção. Mas, cuidadoso que sempre fora, sentindo um pequeno desconforto ao revelar sua cueca de bolinha para aqueles olhos joviais, por isso, despiu-se de costas e já foi logo se deitando.
A massagem mal começara e logo fez com que a dor desse lugar ao prazer, como se algo sagrado contido em mãos tão macias deslizasse sobre sua carne mole, já não pensava em moral, nem em metrô, nem em nada mais. Ele estava como que ressuscitando para vida e tudo não sendo mais que uma simples massagem. Por seu lado, a moça, ao descobrir seu novo dote, também sentia certo prazer naquilo que fazia no momento.
Primeiro o pã... (balbuciava) e chegou a pensar que as coisas poderiam evoluir para algo melhor, mas não ousaria pedir, afinal, isso implicaria em um acréscimo monetário, o qual não dispunha, assim, sentia-se feliz por aquelas mãos continuarem a tocar suas costas já aliviada da dor, este sim, seria seu verdadeiro gozo.
Aqui poderíamos para nossa história e, por que não, meu amigo, por um final feliz para um amor nascido por sobre lençol de um hotel de quinta categoria. Mas não, a história então já seria outra que, atrevida, havia penetrado em nosso enredo. O fim aqui seria um pouco mais doloroso. E dizemos isso não porque a moça, por questões de ofício, recusasse nosso homem, mas sim, era a história mesma que exigia um outro fim.
Terminada a sessão ele pagou a garota, agradeceu-lhe, vestiram suas roupas e saíram em direção à escadaria. E foi nessa hora que a coisa se passou, pois enquanto desciam a escada, deram de frente com um casal que a subia. A moça, assim como a sua acompanhante, era garota de programa, mas o rapaz, com aquele jeito, só poderia ser e era (maldição, exclamou), o namorado de sua filha!
Ele quis gritar, sumir dali para sempre, mas ficou estarrecido, somente ouvindo aquelas palavras do futuro genro:
--Ah, o senhor também por aqui sogrão? Perguntou maliciosamente o rapaz.
--E se fosse sua filha que estivesse aqui comigo, hein, não seria bem pior? Emendou vingativamente e sem piedade o garoto, dando-lhe um tapinha nas costas ao passar e subir a escada, não sem antes confirmar sua presença (mais a noite), na casa do miserável emudecido.
Claro que se fosse sua filha que ali estivesse o fim teria sido muito pior, mas os variados motivos, tão explícitos, para esse outro fim de nossa história eu deposito em sua conta, meu caro leitor. E isso porque nosso homem ficaria sem condições para falar por uns bons tempos, pois dali, com a coluna e a alma travada, foi levado imediatamente para um internamento hospitalar público psiquiátrico, longe deste que vos registra o fato, impossibilitado que está, este último, de sequer pagar uma passagem de metrô e conferir de perto o que realmente se passou com nosso protagonista. |
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A MARCHA DOS SURDOS OU, A MORTE DA PALAVRA. |
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Para Rousseau os gestos estariam ligados diretamente com nossas necessidades físicas (o comer, o abrigar-se, etc.), já a língua, estaria ligada às paixões humanas vindas a luz em seus momentos de amor e cólera (o afeto para com os do mesmo espaço de convivência e o ódio para com o estranho, o invasor).
Eis o que nos diz: “... acossa-se em silencio a presa que se quer comer; mas, para emocionar um jovem coração, para repelir um agressor injusto, a natureza impõe sinais, gritos e queixumes.”* (grifo nosso).
A linguagem propriamente dita seria produto social em processo evolutivo, distinto dos animais, mesmo os de estruturas sociais, pois nesses também há comunicabilidade, porém, rígida, fixa desde seu nascedouro e incapaz de se desenvolver. |
Em verdade, não há oposição entre grito e surdez, já que o primeiro seria nulo para com a última. |
O fato é que não podemos estabelecer uma ordem hierárquica, levando ao pé da letra à máxima do grande filósofo, aqui convertida em epígrafe, pois estaríamos afirmando a supremacia da palavra sobre os gestos, quando o fundamental é a sociabilidade expressa pela comunicação, objetivo último na relação humana, já que não há humano sem sociedade.
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Se diferente fosse, as pessoas com necessidades especiais, como os de problemas auditivos e fonéticos, não poderiam valer-se dos gestos e assim interagir com o mundo.
Ao contrário do que possa imaginar os que cultivam a indiferença, os que se encolerizam contra as assembléias, mesmo quando toda imprensa grita escandalizada o desvio do dinheiro público, surdos e mudos não podem ser símbolos da indiferença, irresponsabilidade e descaso para com a educação pública.
Em verdade, não há oposição entre grito e surdez, já que o primeiro seria nulo para com a última.
O que se deve observar é se tal grito estaria silenciando aquele que deseja falar ou se, quem vendo radicalidade somente na história passada, nos livros, esquece que ele também é (ou deveria ser), agente histórico, mas preferiu ocultar-se atrás de acusações sem nada propor.
E não poderia ser diferente, afinal, há todo um desconforto para aqueles que, convivendo em um espaço de produção de conhecimento, espaço das chamadas ciências humanas, onde tanto se fala em ética, tem na cabeça da instituição alguém que por três vezes aparece na mídia, envolvido em corrupção. Ainda mais quando se sabe das perseguições que a outros são infringidas, sindicâncias, etc., quando se manifestam contra essa corrupção.
Por isso, querendo pairar acima dos pobres mortais, o porta-voz dos indiferentes, se mostra indignado com os gritos, ora na esquerda, ora na direita. Nivela ambos os conceitos e vai dormir em paz, sonhando com seu rebanho silencioso.
Ao que tudo indica, esquerda e direita, na concepção desse filho de Hermes, são mercadorias expostas em feira livre, cabendo a ele tão somente o escolher e tendo a predileção por aquela que não faz estardalhaços, que não grita e que precisamente não quer, feito um gatuno, ouvir barulho algum. |
Agora, se acaso o nosso herói ousasse um pouco e fosse perguntar a quem está envolvido em corrupção se o mesmo prefere os gritos das assembléias denunciando-o ou o silencio dos indiferentes com a coisa pública, certamente que pela boca do acusado haveria similitude com tal silencio. Teríamos, enfim, a revelação, o que realmente esse silencio queria nos dizer.
É possível imaginarmos Sócrates preferir o diálogo particular a Ágora, mas, impossível de vê-lo cultuando o silencio, renunciando a problematização de uma temática colocada.
Essa renuncia em palavras, que faz coro com a ordem corrupta de fato, porque nada diz, (quando se é preciso dizer!), expressa tão somente a pequenez de uma gente preocupada com o certificado de doutor no amanhã, ainda que cumpra a função de serviçal em seu hoje.
Por fim, quem dá às costas as assembléias e impunha a bandeira da surdez procurando se refugiar em mero panfleto, revela neste (pelo vazio do conteúdo expresso), uma outra bandeira, a da morte da palavra! |
* Ensaio sobre a origem das línguas |
Guarulhos ao entardecer,
13/05/2008
Assina: Sem - Luz |
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O HERÓI DO POVO BRASILEIRO |
“Chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão...”.
Acorda Amor - Julinho de Adelaide (Chico Buarque) |
Agora é pra valer, o povo brasileiro já tem seu herói. Trata-se do Major João Busnello, homem de coragem e que na sexta-feira, 25 de setembro em Vila Isabel, deu um tiro certeiro na cabeça de Sérgio Ferreira, varando-lhe a cabeça e furando o boné da marca Nike, patrocinadora do seqüestrador. |
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Pois é isso mesmo e mais, os empresários que se cuidem porque o nosso franco atirador estará sempre pronto para agir e, o melhor, pelo salário que ganha, já definiu seu lado, o nosso, o dos pobres, salve Major Busnello!
Agora eu quero ver empresário seqüestrar suor de trabalhador e pagar mísero salário, pois vai receber em troca o tiro de misericórdia do nosso herói, o destemido Major, cara sangue nu zói, sempre pronto pra ação. |
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De nada adiantará conversa esfarrapada de patrão, porque o nosso herói irá deixá-lo no chão: corpo estendido e frio, todo coberto de jornal econômico com cifrão na cara em vez da foto de um gol, como nos diz a canção.
E não vai ter moleza pra endinheirado nenhum, pra vampiro almofadinha que gargalha da desgraça periférica (desgraça criada por doutor!), coisa nenhuma. Para o terror de toda socialite veremos estampados em suas colunas sociais: cuidado, Major Busnello vem aí!
Medo de desemprego? Que nada, o Busnello resolve pra gente. E não pense que é com greve não, é na bala mesmo!
Impiedoso com os malfeitores, os que deixam pai e mãe de família no desespero da rua da amargura vendo suas crias sem presente e sem futuro, Busnello não deixará por menos e sairá à captura dos verdugos dos trabalhadores e, em nome da justiça, atenderá o clamor do povo: bala neles Major!
Meu caro amigo, sei que violência gera violência, mas, as coisas são como são porque Deus quis assim, por isso, gente pragmática como Busnello não fica esperando o quanto pior melhor e, com seu instrumento de trabalho (trabalhador que é!), primeiro atira pra perguntar depois. Fogo neles Major!
E já há rumores de que a Vila no próximo carnaval terá Busnello como destaque, acompanhado pela ala do BOPE, num rebolado e samba no pé de dar inveja aos que se amontoam nos camarotes da elite e orgulho aos moradores do morro do Macaco que em uníssono já entoam o refrão aprendido: ananauê, ê, ê, ê./ananauê, ê, ê, ê.
Mas essa homenagem não é para menos e veio em boa hora, afinal, de atirador de elite para, atirador na elite foi só um pulinho para Busnello, pobre que sempre foi de origem.
Por pura precaução, empresários, sócios de fabricantes de armas pesadas como fuzis e outros apetrechos afins já pensam em perder parte de seus lucros e cortar todo canal de escoamento de suas mercadorias rumo aos morros cariocas. Dessa forma, antes que outros passem a imitar o heroísmo do Major Busnello, a burguesia carioca, sabedora de que é melhor perder os anéis do que os dedos e melhor perder esses últimos do que a cabeça, promete não mais lucrar com esse feitiço (não só da Vila) que se volta contra o feiticeiro. E indo as últimas conseqüências, vociferam: queremos ver esses negrinhos arranjar armas e munições sem as nossas transações comerciais. Dizem que como prova de boa fé, a Nike já retirou seu patrocínio nessas ações e se mandou lá pras bandas da Indonésia, onde, especulam uns, confina trabalhadores em trabalho escravo, o que fez com que o Major Busnello e seus amigos perdessem a importância por aqui, neste nosso país abençoado por Deus, mas isso já é uma outra história. |
29/09/2009, Carone
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MALDOROR
Um raio na testa,
Ora essa!
Sangue sufocando chão.
Sangue, carne e osso.
Contraponto:
Deus alvoroço!
Que nada, boca sorria.
Por companheira,
Imortal poesia.
18/08/2008
Carone |
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