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Favelas do Rio de Janeiro:
Entre a possibilidade do Poder Popular e o Cerco da Opressão
(2ª Parte)

Os caminhos para os Novos Quilombos

Ainda que as favelas sejam espaços dos oprimidos onde existem várias possibilidades reais de organização autônoma e independente, de construção do poder popular, os caminhos que podem levar a isto não são tão evidentes quanto em outros casos de comunidades ou grupos de explorados. Em fábricas, empresas ou categorias de trabalhadores, as questões relativas ao trabalho (salários, jornadas, emprego, etc) aglutinam automaticamente os proletários em lutas das quais podem nascer organizações autônomas como comitês de fábricas e mesmo sindicatos independentes. Entre camponeses pobres e sem-terra, as lutas em torno da terra são o princípio para ocupações organizadas e associações das quais podem surgir “mini-áreas liberadas” onde outras dimensões do poder popular (na educação, autodefesa, cultura, etc) podem ser exercitadas. Também é em torno da terra, intimamente ligada à questão da autonomia cultural, que se desenvolvem as lutas de etnias oprimidas (minorias indígenas nas Américas, entre elas), como foi o caso dos próprios quilombos na sociedade escravista.

A questão da moradia está ela própria na origem das favelas e continua a ser um fator poderoso para a organização e lutas dos pobres

Nas favelas e comunidades proletárias em geral, a realidade das lutas não é tão específica, há diversas lutas entrelaçadas que resultam da circunstância tão geral de que, o há de comum entre seus moradores, é que a grande maioria são proletários (exceto alguns pequenos proprietários de lojas e outros pequenos negócios) que moram num mesmo local. São proletários das mais diferentes profissões, empregados e desempregados, de idades diversas, e de diferentes origens culturais e étnicas (embora até hoje, no Rio, predominem os afro-descendentes). Claro que, dentro dessa diversidade, há necessidades específicas que dão base para lutas um pouco mais específicas.

A questão da moradia está ela própria na origem das favelas e continua a ser um fator poderoso para a organização e lutas dos pobres, através de ocupações e movimentos de sem-teto. Porém, no interior das favelas mesmo a questão da moradia é um problema candente apenas para uma fração minoritária da população, aquela que não tem sua própria residência e não tem condições de arcar com os aluguéis resultantes, ou que mora em habitações particularmente precárias e sujeitas à destruição em qualquer chuva, inundação ou deslizamento de encostas. A luta desta parte do povo favelado não é tanto uma luta da comunidade existente, mas uma luta pela fundação novas comunidades resultantes de ocupações de terrenos ou prédios. Indica somente que as favelas não conseguem ser uma “solução” plena para os problemas de moradia do proletariado.

Ligadas ao problema da moradia estão as lutas relacionadas às necessidades urbanas das comunidades: saneamento, saúde, transporte, pavimentação, luz, água, telefone, etc. Porém, diversamente da questão da moradia, estas são necessidades que dizem respeito a toda comunidade e não apenas a uma parte dela. Não é por acaso que a partir delas surgiram movimentos de toda a favela como as associações de moradores. Se parte das lutas por essas necessidades “urbanas” pode se orientar para iniciativas totalmente independentes (obras coletivas realizadas em mutirão, ligações clandestinas realizadas coletivamente, etc), a falta de recursos das comunidades logo as orientam para a pressão e reivindicação sobre o estado, o que abre uma ampla brecha para a cooptação e para a captura do movimento comunitário, como já foi visto.

As necessidades urbanas das favelas continuam sendo um importante fator de mobilização e organização da comunidade, e podem contribuir para a realização de experiências de poder popular desde que se lute por uma total autonomia e independência nestas lutas, contra a cooptação pelo estado e parlamentares, por uma prática democrática de base com a soberania das assembléias dos moradores. Não é uma batalha fácil, trata-se de afrontar uma rede de interesses e clientelas que reúne “lideranças” vendidas, ONGs oportunistas e bandidos armados. Exige uma formação militante de quem queira travá-la, uma organização de base que às vezes terá que ser até semi-clandestina, e talvez surja a partir de outros movimentos sem ligação inicial com as demandas urbanas (como movimentos culturais ou educativos).
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Ao lado da luta pelas necessidades urbanas, a luta pelas necessidades culturais do povo das favelas é outra que diz respeito a toda a comunidade. Entendemos aqui cultura no seu sentido amplo, que abrange educação, esporte, arte, memória e inclusive ciência. Ainda que parte destas lutas também possa adquirir um caráter reivindicativo, o que abre campo para a cooptação pelo poder burguês, a experiência popular demonstra que o potencial de independência e construção de identidade e auto-estima através da cultura é bastante sólido e forte; como se verifica pelo exemplo do samba, da capoeira e, mais recentemente, do hip-hop. Por seu lado, experiências educacionais como cursos de alfabetização para jovens e adultos, pré-vestibulares para negros e carentes, etc; já mostraram que podem ser desenvolvidos de forma independente e serem veículos de organização e conscientização popular. Sem dúvida, a cultura representa hoje em dia um dos campos mais férteis para a auto-organização das comunidades proletárias urbanas.

Finalmente, diante do aumento da violência no cotidiano das favelas, assumem cada vez mais importância para a vida das favelas as lutas por direitos humanos, ou mais especificamente, contra a violência, em especial a violência do estado que se expressa através da polícia. É claro que a grande maioria das ONGs de direitos humanos que tentam ser porta-vozes do movimento das favelas contra a violência buscam desfocar a luta e dirigi-la contra a “violência” em geral, evitando a denúncia prioritária da violência policial. Mas o amadurecimento das comunidades neste aspecto tem sido notável nos últimos anos, e apesar de toda confusão das ONGs, o povo das favelas tem aprendido que a única maneira de contraposição à violência é a luta coletiva, o levante, o protesto nas ruas, ações que podem se desenvolver como uma prática de autodefesa. O movimento ainda não tem um caráter mais permanente e organizado, mas as possibilidades são evidentes. Mais que em todas as outras lutas específicas das favelas, a luta contra a violência é perigosa e complexa, mexe com interesses profundos de gente acostumada a matar e prender, e exige capacidade militante e firmeza.

As lutas e movimentos em torno destes quatro eixos, ou seja, a partir das necessidades de moradia, serviços urbanos, cultura e paz (contra a violência) do povo das favelas e periferias, são os meios mais imediatos de aglutinação, organização e crescimento em consciência das comunidades proletárias urbanas. Mas lutas e movimentos a partir dessas necessidades, por mais importantes que sejam, não são capazes de superar a opressão em que vivem, não podem por si só evoluir para um processo de poder popular com capacidade de libertação. Pois continuam sendo lutas contra sintomas, não contra as causas da exploração, opressão e “exclusão”.

Todo este texto dedicou-se a mostrar que o cerco opressivo da favela não é algo fortuito, acidental, nem sequer motivado apenas por preconceitos burgueses ancestrais. Ou antes, que o preconceito anti-favela cumpre um papel social importante para a reprodução da dominação burguesa na sociedade. Se a favela não tem serviços de saneamento, educação, saúde, etc; não é por “incompetência” ou má-vontade dos governantes, mas porque estes são “gastos” que a burguesia vê como desnecessários para uma população que proporcionalmente consome pouco e (aparentemente) mal participa dos circuitos de valorização do capital. A educação e cultura impostas à favela são de baixa qualidade e alienantes não porque não há recursos nem porque os governantes são uns imbecis (embora muitos pareçam ser mesmo), mas porque interessa à classe dominante que o povo pobre da favela não tenha senso crítico, e porque interessa-lhe também destruir a cultura própria e insubordinada que a favela cria. A polícia age violentamente contra a favela não porque é formada por um bando de sádicos e doentes, mas porque interessa ao sistema que o proletariado das favelas e periferias viva com medo e veja a si mesmo como sub-cidadãos (ou sub-humanos).

Desde suas origens, a favela abriga aquele setor do proletariado mais explorado, mais massacrado pela “exclusão” que é uma característica inevitável do capitalismo, portanto aquele setor que parece “menos importante” para a burguesia. Pois é exatamente esse setor que o capitalismo tardio do início do século XXI mais multiplica pelo mundo afora: as multidões de desempregados, subempregados, trabalhadores “informais” e trabalhadores não especializados (aqueles cujas rendas mais caíram nas últimas décadas). É o setor mais representativo do proletariado atualmente, como foi o operariado fabril nas primeiras décadas do século XX. Contudo, ao contrário dos trabalhadores das fábricas, usinas e grandes meios de transporte, o proletariado desempregado, semi-empregado e mal-empregado parece que tem uma “importância” relativamente pequena para o capital. Sua “função” para o capital é formar uma massa crescente que pressiona para baixo o valor real dos salários, amedronta os “empregados” com a perspectiva do desemprego parcial ou total, torna sempre disponível a preço vil uma multidão de trabalhadores não especializados prontos a serem mobilizados para qualquer necessidade momentânea do capital (ou para necessidades escusas, como tráfico de drogas, tráfico de crianças e mulheres, tráfico de órgãos humanos para transplantes, etc). Pensando bem, sua função para o capital dos dias atuais não é de maneira nenhuma “pouco importante”, mas para que os pobres continuem a exercê-la, é preciso que eles sejam tratados (e vistos, e se vejam) como “pouco importantes”... Mas o povo pobre, em geral, é teimoso e resiste em se ver como descartável. Mais que isso, resiste e luta para reafirmar sua humanidade. E, muitas vezes, lutam desesperada e violentamente porque são, hoje, aqueles que “não têm nada a perder”, de quem falava o Manifesto Comunista há um século e meio atrás.
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O proletariado “excluído” é um produto objetivo e inevitável do processo de reprodução e da história do capital: substituição do trabalho vivo por trabalho acumulado (máquinas, etc), aumento incessante da produtividade tendo por conseqüência, não a redução geral da carga de trabalho necessário sobre a humanidade, mas a expulsão contínua de milhões das atividades produtivas remuneradas pelo capital e acréscimo de esforço e pressão sobre os que permanecem. Então o significado social fundamental da luta das favelas, enquanto concentrações desse proletariado, é precisamente levantar a parte da sociedade que mais sofre com o descalabro do capitalismo tardio, contra a existência mesma do capital. Significa, contrariamente às crenças generalizadas à esquerda e à direita, que é através da atividade do proletariado das favelas (a parte mais numerosa dos “excluídos”) que podem ser hoje travadas as batalhas decisivas em torno do trabalho, e não nas fábricas e empresas.

O próprio proletariado das favelas sabe que todos seus problemas e sofrimentos giram em torno da questão do emprego, ainda que essa consciência não se traduza em movimentos coletivos como no caso da paz, moradia, cultura e serviços urbanos. Mas, ao longo das décadas, e em particular nos últimos 25-30 anos, os pobres das comunidades têm de uma maneira ou de outra tentado contornar o pesadelo da falta de trabalho ou do trabalho precário e mal-pago. Camelôs, biscateiros, artistas ocasionais, vendedores em janelas de automóveis, flanelinhas, trabalhadores da construção civil a empreitada, catadores de lixo e sucata, trabalhadores temporários no comércio, contínuos e auxiliares dos mais variados tipos, essas e outras são as formas encontradas pela população que “se vira” para sobreviver. Quando não optam, por desespero, pela criminalidade, mendicância  ou prostituição.

Com certeza, e em parte aproveitando a onda da “terceirização” e outras formas de legalização do trabalho informal, existe um campo de possibilidades de organização coletiva dessas atividades que, não resolve, mas pode reduzir o sofrimento dessa parte imensa do proletariado e dar um sentido coletivo e de classe aos seus esforços. Assim, cooperativas de trabalhadores da construção, de catadores de material reciclável, de artistas de rua, de ambulantes e outras, organizadas autonomamente (sem interferência do estado ou de agenciadores), podem racionalizar recursos, ampliar a escala dos serviços que podem ser prestados (uma cooperativa bem organizada na construção pode assumir obras muito maiores que biscateiros individuais, por exemplo), e com isso ampliar os ganhos individuais. Também é possível a organização de cooperativas de consumo que estabeleçam relações de intercâmbio com assentamentos de sem-terra das áreas próximas às periferias urbanas, e cooperativas de moradia que adquiram materiais e construam coletivamente.
...para que todos trabalhem. Essa fórmula tão simples e tão óbvia é, no entanto, tão incompatível com o capitalismo que todos aqueles que só admitem atuar e “lutar” (?) dentro dos limites da sociedade burguesa não a levantam e encontram milhões de argumentos para justificar sua inércia.

Todas essas ações são importantes não só pelo seu resultado imediato (melhorar as condições materiais de existência do povo) mas também pelo aprendizado de organização coletiva e autônoma que elas propiciam. Na verdade, este segundo aspecto é o mais importante, pois enquanto formas de contornar o desemprego e a pobreza, o limite delas é evidente. Qualquer atividade organizada em formas cooperativas (a não ser as destinadas a consumo próprio dos produtores, como agricultura de subsistência e construção de habitações próprias) e que produza mercadorias (produtos ou serviços) logo esbarrará na concorrência e na limitação do mercado capitalista, portanto só uma pequena parte conseguirá sobreviver. Mais que isso, mesmo essas iniciativas bem sucedidas, enquanto não rompem com a lógica global da economia capitalista, estarão na verdade tomando o lugar de outros trabalhadores que do contrário estariam empregados. Ou seja, iniciativas cooperadas bem sucedidas podem reduzir o problema do desemprego para quem participe delas, mas não muda nada (ou até piora) para quem está fora. É o mesmo problema que cada vez mais enfrentam os assentamentos de sem-terra: produzir o que, para quem (qual o mercado que irá absorver a produção) e como (quem financiará?).

Por isso, as iniciativas cooperadas só terão sentido se forem, acima de tudo, formas de reunião, organização e sustentação material de coletivos de militantes que travem uma luta geral contra a lógica da economia que produz desemprego permanente e crescente, que só pode ser uma luta contra o capitalismo. Portanto, mais que produzir, esses coletivos devem organizar ações de massas de denúncia do desemprego, como protestos de rua, ocupações temporárias ou permanentes de fábricas e empresas fechadas (recolocando-as em atividade sempre que possível, embora a viabilidade disso seja em geral pequena), ocupações de órgãos públicos ligados à questão econômica, ocupações de bancos e grandes empresas, etc. No centro de todas essas ações devem estar bandeiras que proponham a ruptura com a lógica capitalista que produz o desemprego, antes de tudo a redução drástica das jornadas de trabalho, que têm hoje, como há cem anos atrás na luta pela jornada de oito horas, a potencialidade de unir toda a classe num só combate pela emancipação.

Pois os eixos da luta pela libertação do trabalho têm necessariamente que passar hoje, antes de tudo pela redução substancial da jornada média de trabalho, de maneira que, para manter os níveis atuais de produção (ou expandi-los), todos hoje que se encontram à margem da atividade produtiva tenham que se integrar a ela. E, ao mesmo tempo, pela garantia de uma remuneração apropriada a todos os trabalhadores, contra a lógica e os objetivos do capital. Que todos trabalhem bem menos, recebendo o suficiente para viverem bem, para que todos trabalhem. Essa fórmula tão simples e tão óbvia é, no entanto, tão incompatível com o capitalismo que todos aqueles que só admitem atuar e “lutar” (?) dentro dos limites da sociedade burguesa não a levantam e encontram milhões de argumentos para justificar sua inércia.

A parte do proletariado que permanece vinculada ao mercado “formal” de trabalho e suas organizações (principalmente os sindicatos) têm se demonstrado profundamente incapazes de levantar e liderar a luta de classe contra o desemprego. No máximo, organizam movimentos pela garantia de seus próprios empregos. Já o proletariado desempregado, subempregado e mal-empregado tem o potencial para estar à frente desta luta, mas ainda não tem organização de massas que o permita. Essa organização pode surgir mais facilmente a partir da experiência e da luta das favelas e periferias, onde a segregação social (e física) e o cerco opressivo construíram uma identidade de oprimidos. É preciso desenvolver essa identidade no sentido da consciência de classe, ou seja, no sentido da compreensão de que os favelados, além de pobres que moram num mesmo local e sofrem preconceito, descaso e violência, são acima de tudo proletários unidos pela exclusão do mercado tradicional de trabalho.

A luta organizada e de classe das comunidades proletárias, ao tocar nos pontos centrais que marcam a dinâmica do capitalismo atual, longe de ser simplesmente uma “força auxiliar” do movimento proletário tradicional (organizado em sindicatos, movimentos grevistas convencionais, etc), tem todas as condições de se desenvolver, crescer e com isso sacudir o movimento tradicional, livrando-o do torpor e da defensiva para que foi empurrado nas últimas décadas pelo “neoliberalismo”, “globalização”, “informatização”, etc; isto é, pelas novas características da acumulação capitalista que amadureceram no último quartel do século XX. É preciso sempre lembrar que, nas comunidades (ao contrário das empresas e fábricas), todos os setores importantes do proletariado estão em contato e convivendo. As lutas proletárias a partir das comunidades têm certamente a capacidade de serem mais “completas” ou abrangentes, pois envolvem não só as questões mais imediatas do mundo do trabalho (emprego, salários, processos produtivos), mas todas as outras questões da vida e da reprodução da classe (moradia, saúde, cultura, autodefesa, etc).

Introduzir a questão do trabalho nas lutas específicas das favelas e periferias (por moradia, necessidades urbanas, necessidades culturais e paz). Desenvolver iniciativas cooperadas no campo da produção a partir das comunidades proletárias. Combater intransigentemente pela independência e autonomia dos movimentos organizados das comunidades, repudiando sua captura e submissão pelo estado ou ONGs. Reforçar a cultura resistente e militante das organizações de luta das comunidades. Desenvolver as ações de massas organizadas das comunidades no sentido de assumirem cada vez mais o caráter de insurreições urbanas. Essas linhas gerais, concretizadas e desenvolvidas nas lutas reais dos proletários nas favelas e periferias, são as sinalizações necessárias para que o sonho dos Novos Quilombos, presente no subconsciente coletivo dos pobres desde as origens das primeiras favelas, progressivamente se construa como uma poderosa realidade.
 

Maurício Campos
Dezembro de 2000

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